Antropólogos como Levi-Strauss sempre apontaram a dificuldade do homem em lidar com o diferente como o principal motivador de conflitos bélicos. Desde que o primeiro homo sapiens africano encontrou seu similar europeu, os distantes hábitos, a epiderme que se distingue, os olhos que não se fitam com o mesmo filtro, impulsionaram a desconfiança como um mecanismo eficaz no processo de conhecimento.
Duas culturas coexistentes, que se avizinham e se entreolham, se autoconduzem a apenas duas possibilidades: se conhecerem ou se aniquilarem. A primeira hipótese, ideal mas impraticável, se anula pelo instinto de sobrevivência. Sempre se considera o conveniente da permanência menos lesivo que o risco das mudanças. O Ocidente prefere olhar o Oriente como um estranho exótico, agradável em suas particularidades, porém destetável quando este se atreve a se aproximar. O Oriente observa o Ocidente como irmão mais novo, ainda preso a secularidades que não são essenciais em nossa devoção ao criador.
Tanto o Islã como o cristianismo e os judeus se voltam a um só deus. Os muçulmanos aceitam Cristo, assim como os critãos, mas consideram Maomé (570-632) o último profeta. Os cristãos pregam a irmandade universal, mas não hesitaram em instaurar as cruzadas entre os séculos 11 e 13 (de 1095 a 1291). Ambos querem convencer o outro de que ''eles'' estão certos. Ninguém aceita o outro capaz de ser inserido em um espelho que somente a si mesmo pode refletir. Como dizia o poeta, só se busca a verdade que traz a superfície. Aquilo que já sabemos, o reconforto.
Há exceções. Quando Averróis aproximou-se dos escritos de Aristóteles ele não tinha como imaginar o significado dos termos tragédia e comédia. Borges narra esse desespero no conto ''A Procura de Averróis'', encontrado no selecto ''O Aleph''. Mas o arábe não desistiu de seu mister, e se o Ocidente conhece hoje o teor de ''Poética'' foi graças a um muçulmano.
O poeta T.E. Lawrence, sim, aquele retratado no filme de 1962, ''Lawrence da Arábia'', ao observar uma morte se queixa. O amigo muçulmano explica: se ele morreu, é porque já estava escrito. Para o Ocidente, o destino é uma questão em aberto. Se os gregos atribuam ao fado carácter decisivo, nada podendo o homem fazer contra o seu destino, o cinema e a literatura do século 20 nos mostram que o homem é o que ele pretende ser. Tanto Omar Khayyam como Zuhair, dois poetas do universo islãmico, insistem em referir-se ao destino como senhor do homem. Zuhair o compara a um camelo cego. Enfim, o homem o rege, mas o trajeto é ditado pelo camelo.
Mas como aceitar o Islã, pergunta o Ocidente. Eles configuram hoje a maior religião do mundo. 1,3 bilhão de humanos espalhados em 56 países dominados por esse culto. Apenas um terço é árabe. No Brasil, somam 1,5 milhão de seguidores. Como os cristãos, os mulçulmanos se dividem em seitas que interpretam à sua maneira o texto do Corão. Por que crescem tão rápido? Bem, o islamismo se propõe como uma síntese do judaísmo e cristianismo. Prega ética, tolerância e responsabilidade social. Condena o culto ao dinheiro e rejeita os regimes baseados na acumulação de riquezas.
Mas como aceitar o Ocidente, pergunta o muçulmano. O nosso profeta foi o último. Eles nos dominam economicamente, tentam impor a sua cultura e não se aprofundam em nossos hábitos. Não estão interessados em nossas almas, e sim, em nosso potencial econômico. Como pode um ocidental considerar o culto a Deus a essência de nossa existência, se eles se devotam ao trabalho em duas partes do dia, e ao prazer e ao descanso em outras duas. Serão nossos irmãos aqueles que rejeitam o mesmo pai?
Esta edição especial busca, num enfoque cultural, dirimir as diferenças. Busca um olhar que perceba no outro as qualidades que nos faltam, os defeitos que nos excedem, a distância que nos aproxima. Façamos como o cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf. Ele realizou duas obras no Afeganistão: ''O ciclista'' em 1988 e ''O caminho para kandahar'' neste ano. Agora ele retorna ao país dos Talebans com a sua lente. Uma câmera que registra o homem, diz Makhmalbaf. Que busca o estranho que traz a essência.

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