A arte de compreender a arte
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de maio de 2002
Rubens Pileggi <br>Especial para a Folha2 
A massa média das pessoas no Brasil, principalmente do interior, tem idéia de que artista geralmente é aquele ser incompreendido que morre pobre e infeliz, geralmente por suicídio. Herança romântica e fantasias sobre a figura ruiva de Van Gogh, que em vida vendeu apenas uma pintura e hoje elas valem milhões de dólares.
Questionado sobre isso por uma moça que vinha ao meu lado no ônibus de volta para casa, não pude deixar de perceber a imagem construída de artista que me deixou incomodado sobre o que era a arte para ela e, tentando tornar sua visão menos trágica e linear, lhe disse que não, que o artista isto, aquilo aquiloutro e depois tinha o marchand, o curador, os museus, o crítico de arte, o sistema de arte, uma opção era dar aulas, que eu conhecia vários artistas de sucesso, e bem vivos, que hoje em dia tinha escolas de arte, podia-se fazer trabalhos paralelos em agências de publicidade, etc. etc., mas saí da conversa desconfiado de que a resposta não era suficientemente apropriada para sua pergunta.
Afinal, que tipo de compreensão se espera de um artista? Mais profundamente: a questão da compreensão diz respeito ao fazer artístico? O cara joga um borrão na tela e aquilo tem que ser compreensível? Sob que ponto de vista? Quem compreende o que quer dizer o famoso quadro pintado por Da Vinci, a Monalisa? As pessoas geralmente dizem, gosto ou não gosto, nunca esse quadro é absolutamente compreensível. Ah, agora eu entendi!
Compreendido devem ser os raciocínios que as pessoas possuem sobre determinados assuntos, seja uma partida de futebol ou uma obra de arte. Claro, cristalino e transparente. Um jornalista, por exemplo, não pode ficar pirando sobre um determinado assunto e escrevendo coisas que não aconteceram, sob pena de causar um rebuliço na redação. Mas para um artista que inventa coisas essa é uma das possibilidades. Muito embora possa o artista trabalhar com questões do jornalismo e o jornalista escrever temas subjetivos, desde que tornada clara suas intenções. Hein?
Intenções, aliás, é o que não pode faltar no procedimento de quem tem na arte sua razão de ser. Ou em que vê a arte como algo a mais do que puro sentimento de gosto ou expressão, porque ela está ligada a códigos e linguagens que ultrapassam a mera apresentação ou ao sabor do gosto alheio, já que cada um cultiva um determinado repertório de informações, conhecimentos e sensações sobre tais temas.
A diferença entre o feio e o bonito, por exemplo. Essa é uma das questões que desde o fim do século retrasado já não serve mais como valor indicativo do trabalho artístico, principalmente depois de Baudelaire e companhia limitada. Depois do maquinismo industrial, depois que a arte começou a ter a cidade como referência, como inspiração. Pode haver mais poesia no lixo, em meio aos abutres, do que dentro de uma casa decorada com muito luxo. É mais certo até isso.
O movimento Dadá surgido após a 1ª guerra mundial que o diga! Diziam seu seguidores que era preciso parar de querer fazer qualquer forma de arte. Somente o escárnio e a ironia diante de um mundo tão louco e violento, era o que pregavam. Ou o grupo Fluxus, que agitou o cenário artístico com seus happenings desconcertantes nos anos 60, tendo artistas como Nam June Paik, Beuys, Yoko Ono, Maciunas e outros que mudaram o pensamento das pessoas sobre arte e a vida em suas fileiras. Por isso, para compreender a arte, é necessário saber sobre qual o contexto estamos falando, seja para falar sobre a Gioconda, um vaso de girassol amarelo pintado por um artista ruivo, ou qualquer outro meio ou processo dessa natureza. Enfim, é necessário relacioná-la ao mundo em que vivemos, entender sua incrustação na carne desta matéria chamada existência. Se a pessoa não tem a mínima idéia sobre isto e só esta voltando para casa porque não tem mais nenhum lugar para onde possa ir, ao menos eu posso compartilhar por um momento de sua tristeza e esperar que o ônibus me deixe no ponto perto de casa para poder continuar pensando sobre essas coisas da arte e da vida.
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