A arte de beber estrelas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de maio de 2003
Carmen Kley<br> Da equipe da Folha 
Ao experimentar pela primeira vez o champagne, há cerca de 300 anos, o monge beneditino Dom Pierre Pérignon, a quem se atribui a invenção desse tipo de vinho, teria dito: ''Estou bebendo estrelas''. Fato ou lenda, ele conseguiu descrever em poucas palavras e de forma precisa o prazer de se provar um espumante.
Champagne ou espumante? ''Espumantes são todos os vinhos que passam por um segundo processo de fermentação; champagnes são os espumantes produzidos na região de Champagne, no Norte da França'', explica o enófilo Alcides Carvalho. Ele comandou, segunda-feira, em Londrina, junto com outros dois enófilos, Acir Valença e Eduardo Valença, uma degustação de espumantes. Segundo eles, essa denominação está ligada ao direito legal de usar o nome desse famoso vinho. Isso quer dizer que todo champagne é espumante, mas nem todo espumante é champagne.
Essa bebida, que tem charme próprio e celebra a vida brinda do nascimento ao matrimônio, da formatura ao negócio bem-sucedido é, na opinião de Alcides Carvalho, eminentemente social. Exige parceria: em menos de dois, não se bebe espumante; perderia parte da graça. ''É uma bebida fraternal'', observa. ''Além disso, traz ânimo rápido e pode ser consumida a qualquer hora do dia, acompanhando de refeições a sobremesas'', complementa. Em outras palavras, o espumante vai da mesa à cama sem o menor pudor.
Para Alcides Carvalho, o Brasil produz espumantes de excelente qualidade. Tanto que nosso produto ficou em segundo lugar em recente concurso na França (a Chandon só perdeu para a Moet Chandon) e bateu todos os concorrentes na Espanha. Temos até nossa Champagne, que é o Vale dos Vinhedos, no Rio Grande do Sul.
Por ser sofisticado, o espumante requer um certo ritual para ser consumido. A primeira coisa que Alcides Carvalho ensina é a maneira delicada de abri-lo. Nada de fazer a rolha espocar. Se o estouro do champagne (o excelente Mum, ai, que desperdício!) no pódio da Fórmula 1 cai bem à situação, o mesmo não se pode dizer de uma comemoração entre quatro paredes. Além de brega, se desperdiça parte do perlage (as bolhinhas), que tem importância no contexto da bebida.
Às mulheres, chegadas às ''bicadinhas'', ele avisa: nada de dividir a taça (que deve ser alta e estreita); em se tratando de espumante, é essencial cada um ter a sua. Outra coisa: a maneira certa de se segurar a taça é pelo pé ou mesmo pela base. O calor das mãos jamais deve alcançar a bebida.
Sempre gelado (entre 6 e 9 graus), o espumante, ao contrário dos outros tipos de vinhos, cuja garrafa deve permanecer deitada, para umedecer a rolha, pode ser armazenado em pé, mas sempre em local fresco.
Beber champagne (ou espumante, como queiram) é uma arte. Ela celebra a alegria. É o próprio prazer transformado em líquido.


