‘‘Era mais importante que eu aprendesse a usar minhas mãos que minha cabeça. Na minha terra, as mãos produzem comida, e a cabeça só produz confusão.’’ A frase de Mestre Vitalino, talvez um dos mais representativos artistas nordestinos de todos os tempos, dá bem a idéia da importância e profundidade de seu trabalho com o barro, ao qual dedicou 48 dos 54 anos de sua vida. Trabalho esse que hoje é um dos principais símbolos da cultura nordestina.
Vitalino Pereira dos Santos nasceu em 1909 em Caruaru e já aos 6 anos fez o seu primeiro trabalho: O Caçador de Gato Maracajá. Trabalho talvez não seja a palavra adequada, já que se tratava mais de um alento para a vida sofrida que tinha no sertão pernambucano. Uma forma de criar brinquedos e dar mais magia ao cotidiano.
Mas quis o destino que a diversão virasse trabalho. Uma senhora do Recife viu a escultura do menino, gostou e pagou ‘‘dois tostões’’ pela obra. Vitalino não pensou duas vezes e vendeu. Foi o primeiro de uma longa série, que hoje está catalogada em 118 peças. ‘‘Meu pai fazia questão de cadastrar todas as peças que criava’’, conta Severino Pereira dos Santos, 62 anos, filho e sucessor de Vitalino.
‘‘Ele só fazia essas peças, não fazia nada diferente. Eu tento me manter nessa relação, mas posso fazer alguma obra diferente se alguém encomendar.’’ Severino trabalha no mesmo local em que Mestre Vitalino criou boa parte de suas obras. Em Alto do Moura, sentado no chão de terra batida da pequena casa de tijolo de barro que hoje é, além de seu ateliê, também museu do trabalho de seu pai, Severino reproduz as obras catalogadas por Mestre Vitalino. ‘‘Trabalho todos os dias aqui, só saio de férias quando tô doente’’, afirma.
Assim como o pai, Severino faz bonecos de barro desde criança. Talvez para diferenciar sua obra, prefere colorir todas elas, ao contrário do estilo de Vitalino, que escolhia o barro cru. Entre os mais pedidos, Severino enumera Lampião e Maria Bonita (R$ 15 cada), a banda de pífanos (R$ 10 o de tamanho médio) e o Caçador de Gato Maracajá (R$ 30).

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