A arte da sorte
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de janeiro de 1997
Telma Elorza 
Marcos BorgesFernando Bastos com uma obra a ser sorteada: arte mais acessívelNão se assuste se um homem alto, magro e cabeludo, de voz calma e suave lhe abordar, algum dia, oferecendo um número para um sorteio de cinco quadros. É assim que o artista plástico londrinense Fernando Bastos coloca no mercado - e somente uma vez a cada quatro ou cinco anos - parte de seu acervo, produzido em 24 anos de carreira.
Afastado do circuito de exposições há 10 anos, por opção própria, Bastos diz que faz estes sorteios para dar oportunidade a pessoas que gostam de arte mas não têm dinheiro para investir cerca R$600 numa única obra. Esta é a chance que estas pessoas têm de conseguir uma obra de arte por apenas R$20 - explica.
O próximo sorteio, por exemplo, será realizado pela Loteria Federal de Carnaval. Os prêmios são cinco trabalhos em nanquim holandês sobre papel alemão e fazem parte de uma série cuja linha de pesquisa é o subconsciente. Até agora, dos 100 números postos à venda restam apenas 20. Entre os concorrentes estão jornalistas, médicos, engenheiros, políticos, professores, músicos, empresários e até marchands . São pessoas que conhecem o meu trabalho há muito tempo e que, sempre que realizo um sorteio destes, participam - diz. Em toda sua carreira, o artista realizou apenas quatro sorteios. Às vezes, as pessoas me pedem para fazê-los mais vezes. Mas não acho legal. Não quero banalizar minhas obras e não preciso disto para viver - afirma.
Monge sem mosteiro Mesmo sem expor desde 1987 - depois de fazer 100 exposições, entre individuais e coletivas, e ganhar 10 prêmios em 30 salões de artes -, Bastos continua a produzir. Só que, nos últimos 10 anos, voltou-se para uma obra mais mística/religiosa, que ainda não fez questão de mostrar. Sou um artista-monje, com jota mesmo. Um monge sem mosteiro, e minha obra agora está voltada para isto. Tenho cerca de 20 quadros inéditos, mas não chegou o momento de mostrá-los - diz. Além disto, trabalha muito sob encomendas, numa linha mais voltada para a decoração. Nesta, sempre trabalho voltado para a harmonia das cores. Através delas, pode-se espalhar saúde e paz - afirma.
Mas, mesmo sem ocupar os espaços culturais disponíveis, Fernando Bastos tem um projeto alternativo de exposições que deve ser posto em prática após o Carnaval. O projeto chama-se Fábrica de Paisagens e se baseia em exposições ambulantes de mini e micro-quadros, que serão vendidos por valores entre R$5 e R$50. Eu chamo a fábrica de A Cor da Terra. São quadros que mostram paisagens rurais, marinhas, celestes, cósmicas e urbanas. Nas urbanas o tema será sempre Londrina, a Londrina de todas as cores - explica.
O projeto já conta com a parceira da esposa de Bastos, a também artista plástica Marly Apoty e a produção dos quadros já começou. Alguns artistas amigos também se interessaram em participar. Nós vamos fazer o contrário do que acontece nas exposições normais, onde o público vai até a artes. Nós vamos levar a arte até o público, seja em feiras, parques e, porque não, igrejas - diz.


