A arte da escrita em verso e prosa
Projeto 'Um dedo de prosa' aproxima alunos e escritores tentando romper a imagem inacessível da literatura
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de maio de 2019
Projeto 'Um dedo de prosa' aproxima alunos e escritores tentando romper a imagem inacessível da literatura
Marian Trigueiros - Grupo Folha 

No Brasil, o hábito de ler livros de literatura ainda é uma realidade distante da maioria dos estudantes brasileiros e, infelizmente, as inúmeras pesquisas confirmam essa constatação. Com o advento da tecnologia na última década, a perspectiva de melhora no quadro tem diminuído, visto o desinteresse cada vez maior dos alunos. Para especialistas e educadores, reverter esse quadro é uma tarefa árdua, porém, indispensável, pois atribuem à literatura uma função formadora no desenvolvimento emocional e psíquico dos indivíduos, bem como na aquisição de posicionamento crítico da sociedade.
É neste sentido que atua o “Um dedo de prosa”, projeto de extensão do Londrix - Festival Literário de Londrina desde 2012, que promove encontros entre escritores e alunos para dialogar sobre literatura. Segundo Christine Vianna, uma das idealizadoras do projeto, como professora, sempre pensou em atividades extracurriculares para estimular a leitura. “O projeto nasceu assim, para acontecer de forma leve, despretensiosa e, ao mesmo tempo, didática, aproximando o leitor do escritor contemporâneo para romper a imagem da literatura como algo inacessível e fechado. Desde então, tem sido muito requisitado pelos professores.” O projeto tem como público alvo estudantes do segundo e terceiro ano do Ensino Médio.
Nesses encontros, o escritor – que tenha, pelo menos, uma obra publicada de qualquer gênero como romance, ficção, poesia – vai até uma escola. Sem um roteiro pré-definido ou modelo de apresentação, fica livre para conduzir o encontro da maneira que achar mais confortável e interessante. “Vai muito do perfil de cada autor: alguns preferem falar sobre a trajetória na literatura e alguma obra específica. Outros preferem discutir o tipo de linguagem que trabalha. Lembrando que é sempre um espaço democrático, aberto para os questionamentos e curiosidades dos alunos e, também, dos professores. Cada encontro sempre flui de uma maneira especial”, enfatiza.
Desde 2012, a média de realização tem sido de dez encontros por ano e a iniciativa já percorreu dez cidades do Paraná e Santa Catarina, com ações em muitas escolas de Londrina e região. Durante a realização do Londrix deste ano, os distritos e patrimônios rurais de Londrina foram o foco da ação. “Quando falamos em descentralizar o conhecimento, faz parte levarmos a discussão e mesmas oportunidades para todas as regiões. Além disso, busca fortalecer o meio cultural de Londrina e região, formando um público mais participativo, desenvolvendo condições para que estudantes conheçam os processos que envolvem a literatura.”
A realização de “Um dedo de prosa” é do grupo Atrito Arte Artistas e Produtores Associados (AARPA), com patrocínio da Prefeitura de Londrina, por meio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) e Governo Federal. Depois dessa primeira experiência com o autor, diversas escolas continuam desenvolvendo atividades como performances, exposição de alunos, feira de livros e saraus. “São frutos desse contato inicial que contribuem para a formação de um público leitor mais crítico e consciente, e, também, o surgimento de novos escritores”, atenta Vianna. Quando é possível, também são distribuídos livros aos alunos.

OS ESCRITORES
Marco Antonio Fabiani, que atua como médico cardiologista na cidade, também é escritor e já publicou diversos livros de romance e ficção. Ainda estudante na UEL (Universidade Estadual de Londrina), teve contato com alunos das mais diversas áreas, principalmente jornalistas, que despertaram nele o gosto pela literatura e desde essa época ele escreve com regularidade. “Quando estou com os estudantes, conto um pouco sobre minha história e que profissões aparentemente diferentes podem caminhar juntas, uma não exclui a outra.” Ele é autor de diversos livros como “Trilhas do Fogo”, “Contos de Pau e Pedra”, “Histórias de Um Norte tão Velho”.
Para ele, em cada ano na participação no projeto, a interação e demanda da turma são diferentes e, assim, também é transformador para o próprio escritor. “Não estamos ali para determinar nada e nem para dar uma aula de literatura, mas para falar sobre o universo da literatura e suas infinitas possibilidades. “Provocamos” os alunos com trechos de obras, ao mesmo tempo em que estimulamos a liberdade e a escrita criativa. Ao longo desses anos, já aconteceram vários episódios marcantes, entre eles, alunos que vêm mostrar poesias já escritas ou professores que mostram trabalhos um lado sensível que os alunos não sabiam. A troca sempre é enriquecedora.”
PRIMEIRA VEZ
Além da experiência de lançar o livro "Pedras, Paus e Pétalas” durante o último Londrix 2019, Moacyr Eurípedes Medri, que é professor e biólogo, também foi a uma escola do distrito de Londrina para participar do projeto. “Fui professor durante 45 anos em todos os níveis escolares, incluindo universitário. Depois de me aposentar, dei início a escrever causos e contos. Neste encontro, contei um pouco sobre minha origem da roça, onde morei até os 25 anos e minhas memórias que, agora, coloco no papel. Essa aproximação com o alunos mostra que, assim, como eu, todos temos histórias para contar, basta treinamento e criatividade”, diz ele.


