Técnica, virtuosismo e abundante matéria-prima. Foi com a reunião desses três elementos que se ergueu em Londrina e cidades vizinhas, entre as décadas de 30 e 60, uma paisagem arquitetônica de madeira. Na época, verdadeiras corporações de carpinteiros instalaram-se no Norte do Paraná construindo desde pequenas casas até colônias de fazendas.
  A exposição ‘‘Ferramentas de Mestres Carpinteiros’’, que será inaugurada amanhã no Museu Histórico de Londrina, levanta uma ponte até os anos da colonização mostrando uma coleção de objetos ligados à arte da carpintaria japonesa e sua posterior aplicação e adaptação pelos imigrantes para a construção de casas na região.
  Uma parte dos materiais pertence ao próprio acervo do Museu, outra parte foi emprestada por familiares de pioneiros. A curadoria é do arquiteto e professor-Doutor em Planejamento Ambiental da UEL Humberto Yamaki. O objetivo da exposição, segundo ele, é ‘‘mostrar a arte milenar da carpintaria japonesa e ao mesmo tempo estudar as técnicas construtivas trazendo elementos para discutir a preservação, manuntenção e sobrevida das construções em madeira’’.
  A exposição está instalada na Galeria de Mostra Temporária do Museu (porta à direita da entrada principal). O acervo reúne 290 peças incluindo ferramentas de marcar, golpear, medir, desbastar, aplainar e serrar. Cada peça é acompanhada de um banner com texto informativo. Há também um manual secreto de carpintaria e duas caixas para guardar ferramentas.
  ‘‘Quase todos os imigrantes japoneses mexiam com carpintaria, já que os trabalhos de construções de casas eram frequentemente realizados em mutirão, coordenadas pelo mestre carpinteiro conforme tradições milenares. Na época, dizia-se que a técnica não era algo que se ensinava, e sim se ‘roubava’ observando os mestres’’ – explica Yamaki.
  Um texto informativo assinala que um dos modelos de caixa de ferramentas pode se visto numa gravura japonesa do século XIV, o que atestaria o peso da tradição sobre o mundo da carpintaria. ‘‘As ferramentas atingiram um nível de obra de arte no Japão’’ – salienta ele. ‘‘Isso ocorreu após a proibição da fabricação de espadas. A partir daí, os artesãos migraram para a confecção de ferramentas refinando sua construção’’.
  Em Londrina – continua o curador – os mestres carpinteiros diziam que a ferramenta era a extensão do corpo, que ela transmitia a alma do carpinteiro à madeira. ‘‘Por causa isso, eles despendiam um bom tempo na tarefa de afiar e fazer ajustes. E as utilizavam durante anos até a sua exaustão’’ – sublinha. O visitante poderá conferir o que diz o curador observando exemplares de peças desgastadas, martelos lascados e serrotes com lâminas recortadas e até com marcas de solda.
  Além dos instrumentos de trabalho dos carpinteiros, a exposição reúne algumas peças resgatadas de casas demolidas, como ornamentos de varandas e plaquetas. ‘‘Elas denunciam a origem de seus construtores nos elementos de fachada e nos detalhes construtivos. O virtuosismo dos mestres carpinteiros pode ser reconhecido pelos telhados recortados e pelos ornamentos carregados de simbolismo’’ – diz.
  Há ainda uma amostragem de encaixes da Casa da Roseira, uma residência construída em 1938 na área rural de Assaí, em mutirão coordenado pelo carpinteiro Yujo Watanabe. Uma das primeiras construções na região, ela utilizou diferente tipos de madeira, entre os quais cedro, araruba e peroba. A casa foi adquirida pelo Museu, já demolida, em 1996. Constitui importante exemplar de aplicação e adaptação de uma técnica milenar transplantada no Norte do Paraná pelos mestres carpinteiros japoneses.
  Yamaki conta que a exposição nasceu de um projeto de extensão da UEL com o objetivo, modesto, de identificar as ferramentas de carpintaria do acervo do Museu Histórico. No projeto, contou com a colaboração de Darci Moura Lombardi (museóloga), Amauri Ramos da Siva (técnico de museologia), Maria Zuleika Scalasara (museóloga) e estudantes de arquitetura.
  Posteriormente, o acervo foi ampliado com os acervos particulares de Kunisaku Matsunaga (in memorian), Minoru Nakagawara (in memorian), Epitácio Suga e Kaoru Matsunaga. A exposição fica aberta até o dia 30 de novembro desse ano.

Serviço:

- Amanhã: Abertura da exposição ‘‘Ferramentas de Mestres Carpinteiros’’, com curadoria de Humberto Yamaki. Horário: 19h30. Local: Museu Histório Padre Carlos Weiss, em Londrina (Rua Benjamin Constant, 900, Centro). Mais informações pelo fone (43) 3323-0082 e 3324-4641.

mockup