É de um peito só a nega de uma das histórias de cordel contadas por Valdeck de Garanhuns, artista pernambucano. História que foi escrita para os que acreditam que, com os olhos da imaginação, é possível ver ou ter até memória do que ainda não existe.
Valdeck se tornou mestre não só em cordel mas na arte do mamulengo, poesia e xilogravura, que encantam mundo afora. Ele tem obras expostas em Washington e Nova Iorque (EUA) e que fazem parte do acervo do museu Fur Volkerkunde, em Frankfurt (Alemanha). Na semana passada ele ministrou uma oficina de xilogravura na Festa Nordestina, que terminou domingo, em Londrina.
''Entre todas as coisas que faço, o mamulengo é a minha paixão porque exercito tudo. As artes plásticas porque confecciono os bonecos, a poesia porque é tudo improvisado e a música porque nas apresentações eu toco e canto. Tudo com a ajuda da minha mulher, Regina Drozina, artista plástica e uma grande companheira, que faz também os figurinos dos espetáculos.''
Aos quatro anos de idade Valdeck já subia no palco representando dramas na igreja Batista e se apresentando, anos mais tarde, no orfeão do Colégio Estadual de Pernambuco. ''Comecei desenhando, copiando. Depois, eu fui crescendo e, hoje, a minha arte é do mundo'', completa o artista, que em suas xilogravuras retrata o Brasil e o povo em toda sua biodiversidade.
Garrado no seio da nega, Valdeck chegou em São Paulo. Ele lembra que estranhou bastante o jeito do povo do Sudeste e Sul, contando que lá nas festas do Nordeste, ninguém vende nada se não fizer munganga (careta). O vendedor grita um adágio, faz troça e brincando vai entretendo o povo, que acaba levando para casa um pouco de tudo.''Na minha família é assim. Tudo a gente faz brincadeira. O nordestino é desse jeito. Se passa alguém com a calça suja, logo a gente diz: Ó, fulano, tá com a calça de tal pessoa. É os nossos dizeres'', afirma.
O leite da nega, que fez a arte de Valdeck ficar tão exuberante, conquistando interesse internacional, parece que não é tão forte assim para acabar com a desnutrição cultural dos brasileiros. ''Para você ter idéia, o primeiro museu a ter interesse em obras minhas no acervo foi o da Alemanha. No exterior, eles respeitam demais a arte popular. Muito mais do que nós. Os brasileiros gostam de beber água turva da cacimba do vizinho só porque colocou azulejo'', comenta o artista. Para Valdeck, em arte não deve haver dilema entre o que é erudito e popular - um peito só, que amamenta para o bem ou o mal.

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