Invasões, ocupações, lugares tomados de assalto, inversão de sinais, de sentidos, deslocamentos de contextos onde antes era preservada uma falsa normalidade, subversões, táticas usadas para provocar a confusão, para quebrar a lógica do raciocínio, estratégias para chamar a atenção para outros pontos de vista além do estabelecido, para denunciar crimes que se cometem em nome da ordem, da liberdade e da paz. Aceitação do conflito. Idéias contra o latifúndio e a monocultura. Tem sido assim pelo menos desde o surgimento do movimento Dadá, na Europa, em plena crise gerada pela primeira grande guerra mundial. Do famoso ‘‘Urinol’’ de Duchamp à Arte Conceitual dos anos 70 e até os dias de hoje, uma onda de inquietação parece tomar conta, cada vez mais, da tradição cultural e artística desenvolvida pela arte, ou melhor dizendo pela anti-arte.
Assim, museus, galerias e instituições não só têm aberto seus espaços e discussões para este tipo de manifestação, como também a cidade, a paisagem e os acontecimentos do cotidiano passaram a despertar nos criadores de linguagem, possibilidades de disseminação de suas idéias, além do que já era estabelecido. Chegou-se, aliás, ao ponto, em um certo período histórico, dos artistas rejeitarem tudo o que fosse oferecido pelos meios tradicionais.
Mas para que este tipo de arte não convencional fosse ganhando terreno dentro da cultura, foi e ainda tem sido importante o uso de várias estratégias como forma de viabilizar tais procedimentos. Entre eles é possível destacar a valorização do processo de criação – chamado também de ‘‘work in progress’’ – em relação à forma acabada da obra. Ou seja, um despojamento do conteúdo estético. O que equivale também a dizer que o uso de projetos acaba se tornando norteador da condução da ação artística, muitas vezes negando o próprio trabalho manual. Não é só, também a durabilidade da obra de arte tem sido fortemente questionada. Aquela esperança dos recursos naturais serem eternamente renovados já se esgotou há tempos, com fatos como a abertura na camada de ozônio e o efeito estufa, por exemplo. Então, qual a razão de se criar uma obra para durar quinhentos anos, como antes? Para enfrentar o mundo que a sociedade de consumo impôs ao nosso tempo, só mesmo usando materiais perecíveis, precários ou virtuais. Além do que se ampliam as possibilidades de uso dos materiais, não só daqueles ditos nobres, mas também os ‘‘pobres’’, achados, encontrados no lixo, descartados pela sociedade de consumo.
Cavar buracos gigantescos dentro de áreas desérticas, intervenções em áreas deterioradas pela poluição e ações dentro de áreas de conflito social tem sido uma constante nos trabalhos dos artistas, particularmente nos últimos 30 ou 40 anos. Mas não é só a paisagem que pode ser alterada pelas ações desses ‘‘saqueadores do lugar comum’’. Também seus próprios corpos estão expostos ao jogo da cultura e, assim, artistas fazem operações plásticas no rosto dentro de galerias de arte – com retransmissão ao vivo para diversas outras galerias – onde o espectador, real ou virtual, pode fazer perguntas à ‘‘artista’’ que se deixa operar. Ou deixam-se pendurar em ganchos como bois desossados, cortam-se, mutilam-se, etc., fazendo do lugar comum um lugar de tensão, de confronto, sacudindo o espectador de seu cotidiano hipnotizado, anestesiado.
Afinal, esse tipo de ‘‘movimento guerrilheiro de vanguarda artística’’ quer ocupar todo o lugar que lhe é devido, fazendo com que a própria linguagem também seja provocada no sentido de fundir, incluir e mobilizar sentidos que antes se faziam estanques em áreas autônomas. Pois, como nos ensinam os mestres desta tradição, ‘‘toda forma revolucionária exige um conteúdo que seja revolucionário’’.
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