Retratando o cotidiano de uma parcela da população que vive às margens da sociedade, os movimentos culturais que nasceram na periferia ajudam a descobrir novos talentos e também podem servir de ferramenta de inclusão social.
Um exemplo disso é hip hop. Surgido na década de 70, nos Estados Unidos, o movimento que tem como base passos de breakdance, poesias rimadas e musicadas e textos em grafite transformou as sangrentas brigas entre gangues rivais americanas em animadas performances musicais de rap e disputas de dança de rua.
Décadas depois, o hip hop tem ajudado a prevenir o envolvimento de jovens com a criminalidade em Londrina depois que passou a integrar as ações desenvolvidas pelo programa federal Mais Educação em algumas escolas da cidade. "Através do hip hop conseguimos trabalhar a criatividade, a disciplina e a incentivar os talentos de crianças e adolescentes. Além disso ocupamos o tempo das crianças no período do contraturno escolar para que elas não se envolvam em delitos", afirma Washington Luís dos Santos, professor de hip hop que ministra aulas na Escola Estadual Professora Vani Ruiz Viessi, localizada no conjunto São Lourenço (zona sul).
Ele explica que na primeira etapa do programa os participantes são orientados a escrever uma carta ou uma redação sobre qualquer tema. "Um dos princípios do hip hop é a originalidade. Por isso, deixamos elas livres para se expressarem sobre o que desejam. Geralmente elas costumam falar de coisas do seu cotidiano, do bairro onde moram e da relação com a família", conta o professor.
Em seguida, ele ensina as crianças a transformarem o texto em poesia rimada. "Trabalhamos a questão da fonética para produzir as rimas. Depois disso é criada uma base eletrônica no ritmo musical que o autor preferir. Procuro não interferir no gosto musical deles. Temos textos que viram letras de rap, funk, música sertaneja e até louvor de igreja, no caso de crianças que frequentam igrejas evangélicas", relata Santos.
"Sempre gostei de cantar e agora que aprendi a fazer música quero me tornar um cantor profissional. Aproveitei meu apelido na rua para criar o nome de MC Bolacha", revela Jean Carlo de Souza, 14 anos.
Com a música autoral pronta, os participantes aprendem a executar coreografias características do hip hop. "Executamos passos de breakdance, com movimentos mais próximos ao solo e também de street dance, que são coreografados. As crianças adoram as aulas e alguns até arriscam a dar uns saltos ousados", enfatiza o docente. "Eu nunca tinha pensado em fazer dança. Mas descobri que tenho facilidade de aprender os passos e por isso o professor sempre pede para os outros alunos prestarem atenção em mim durante as aulas. Meus pais estão orgulhosos", relata Luana Correia Nunes, 10 anos.
Outra atividade que chama a atenção da garotada é aprender a comandar a mesa de DJ (disk jockey). "Sempre quis aprender como os DJs fazem para tocar e mixar as músicas. Achei muito legal. Quero fazer disso a minha profissão", destaca o estudante Jeferson Murta, 12 anos.
Somente o grafite ficou de fora das atividades com as crianças. "Por causa do cheiro da tinta, que é tóxico, a direção da escola achou melhor deixar as aulas de grafite de lado. Mas o importante é que a essência do hip hip está sendo mantida. Essa é uma cultura popular que permite que as pessoas expressem através da arte tudo o que se passa em sua rotina na periferia e falem sobre suas carências, sonhos e dificuldades", avalia Santos.

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