A arte como ciência da liberdade
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de maio de 2001
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha 2 
A primeira barreira a vencer quando vamos pensar um mito, é a de não nos deixarmos aprisionar pela alegoria que a força de sua verdade invoca, temendo ser por ela devorado. Atravessar a camada superficial de sua representação enquanto moda , ou tendência - que poderiam nos dar a satisfação de seu reconhecimento - e encarar o perigo de mergulhar no mundo misterioso onde o mito foi gerado e envolver-se em sua razão de ser e sua história, é o grande desafio para a compreensão do significado de sua existência. No caso do alemão Joseph Beuys - um dos artistas mais importantes do século 20 -, esse algo, sem dúvida, é a relação entre a estética e a política, na tentativa de unir, em uma só dimensão, a arte e a vida, o sublime e o cotidiano. Para ele, todo homem é um artista e a arte, a transformação não apenas do indivíduo, mas de toda a sociedade. Lutando contra o racionalismo econômico e industrial e buscando resgatar associações mágicas e arquetípicas que permitiriam o surgimento de um homem íntegro e harmônico, Beuys nos deixou um legado que resiste até hoje, na medida em que a dissociação do homem com seus valores mais essenciais se torna cada vez mais evidente: Me dei conta de que o artista pode desempenhar um papel importante na cura de um trauma social, era o conteúdo de sua pregação.
Nascido em 12 de maio de 1921 e falecido em 23 de janeiro de 1986, Beuys, estaria completando 80 anos este ano. Filho de um comerciante de ração para animais, desde criança se interessou por botânica, zoologia e biologia, tendo intenções de estudar medicina. Mais tarde, vai usar este aprendizado em materiais, desenhos e ações termo que usava para definir os happenings nos quais mesclava as linguagens da performance e da instalação em seu trabalho artístico. Em 1943, é convocado pelo exército nazista alemão para participar da 2ª Guerra como piloto de aviões, quase perdendo a vida, ao cair no deserto da Criméia. Graças a uma tribo de nômades tártaros que o manteve por meses enrolado em gordura animal e feltro - para lhe curar de seus graves ferimentos - pôde retornar ao mundo dos vivos, agora com a idéia de se transformar em um artista. A gordura e o feltro, aliás, vão se transformar em materiais fundamentais em sua poética, como metáforas de condução e isolamento de energias, maleabilidade e proteção da vida. Os traumas de guerra também o acompanharão.
Beuys entrou na Academia de Dusseldorf de Arte em 1947, trabalhando primeiramente com o escultor Joseph Enseling e logo, com Ewald Mataré, professor de escultura e incentivador de seu trabalho. Durante este tempo, Beuys questionou os parâmetros acadêmicos tradicionais e buscou ampliar seu alcance artístico, habilidades técnicas e a compreensão de arte pelos assuntos que explorava, técnicas esculturais e o uso de materiais não tradicionais. Seu desejo era explorar uma teoria sistemática da arte que pudesse acomodar seus interesses em ciência e filosofia, de modo interdisciplinar e holístico. Ao completar seus estudos na Academia de Arte em 1951, Beuys produziu milhares de trabalhos em papel com óleo, aquarela, nanquim e lápis. O aparecimento regular de traduções arquetípicas da figura feminina e animal e formas de planta -particularmente o veado, alce, lebre, cisne, e abelhas - distingue o trabalho deste período.
Em meados dos anos 50 é acometido por uma crise depressiva, que chegou a durar anos. Graças aos irmãos van der Grinten, que o acolheram em sua fazenda e foram os primeiros a colecionarem seus trabalhos, Beuys teve seu ânimo reabilitado, podendo dar continuidade à sua produção: Esta era a fase à qual eu comecei a trabalhar sistematicamente em certos princípios básicos. Estes princípios se desenvolveram no Conceito Ampliado de Arte, e depois, na Teoria de Escultura Social, onde via a sociedade como que sofrendo um trauma psíquico, social, político e ecológico, e que arte poderia oferecer a cura plena e a redenção destes traumas.


