A ARTE AFRO POP DE MARGARETH
Antônio Mariano Júnior
De Londrina
Axé-music coisa nenhum; é afro pop music a maneira que a cantora baiana Margareth Menezes gosta de classificar seu trabalho reconhecido principalmente no exterior. Tem ela razão em querer diferenciar-se da mixórdia que se transformou a música atualmente produzida na Bahia. O estilo de Margareth busca o pop, de fato, mas está enraizado, sedimentado em sons tradicionais como a chula e o samba-de-roda, por exemplo que ela aprendeu desde pequena a dançar e a cantar. Foi uma das primeiras artistas a fundir levadas baianas com sonoridades contemporâneas e produzir o que hoje é chamado de world music.
Como acontece com frequência na terra brasilis, precisou alguém de fora dar o aval para que mídia e público tomassem conhecimento de que havia alguém, na Bahia, fazendo um som muito interessante. Foi David Byrne, ex-líder do Talking Heads, quem ficou de cara ao ver, em vídeo, Margareth cantando uma música de seu primeiro disco, em 88. Pronto, a carreira internacional começava a ser pavimentada.
Margareth Menezes é, por direito e trabalho, uma das mais respeitadas vozes da Bahia nos dias de hoje. Se para Daniela Mercury e Ivete Sangalo acendem-se todos os holofotes da mídia, para Margareth há um respeito, uma reverência, um prestígio vindo de gente do povão e também do alto escalão Bethânia chegou a declarar, certa vez, que se tratava uma força da natureza.
Vê-la em cena é algo muito bom. O atributo maior é a voz, claro. O suingue e a maneira com que divide frases e compassos, dons. O jogo cênico, espetacular não é para menos, ela veio do teatro. Por essas e outras é que Margareth foi a atração brasileira mais aplaudida durante o 7º Percpan, a ponto de ofuscar estrelas de grandeza óbvia como Daniela Mercury e divas da hora como Ivete Sangalo as três se apresentaram pela primeira vez juntas num espetáculo concebido por Gilberto Gil e Antonio Risério.
Com 12 anos de carreira, Margareth Menezes tem uma discografia composta por seis discos o último lançado há cinco anos. Nunca estourou em todo o País. Mas conquistou nos quatro pontos costados uma legião de admiradores que vêem no trabalho dela consistência, originalidade, um jeito interessante de tratar a levada baiana sem descambar para o comercialesco.
Esse jeito, em contrapartida, também faz dela uma cantora que dá longas pausas entre um disco e outro. As gravadoras a vêem como um produto, digamos, difícil de vender, mesmo sabendo da boa aceitação que tem no exterior. Em outras palavras, Margareth destoa, pela lógica vigente do mercado fonográfico, no cenário da música feita na Bahia.
É o que dá nadar contra a maré. Tanto que ainda negocia com algumas gravadoras para lançar seu próximo disco com músicas de Lenine, Lazzo, Carlinhos Brown, Nando Reis, entre outros. Gilberto Gil deverá ser convidado a participar de uma faixa. Se nenhuma gravadora quiser, ela diz que vai bancar o projeto. Até o final do ano, sai. Enquanto isso, Margareth se prepara para mais uma turnê a décima primeira que fará, a partir de junho, por 20 países da Europa. Em Salvador, a cantora concedeu entrevista à Folha 2. A seguir, os principais trechos.
Você consegue se diferenciar das atuais cantoras da Bahia. Isso é bom, né?
Tenho minha marca, minha personalidade musical e um discurso que é verdadeiro. Posso não saber de todas as possibilidades que eu tenho, mas as coisas que eu não quero cantar eu já sei.
O que por exemplo? Músicas do Tchan, boquinha da garrafa, essas coisas?
(rindo) Não tenho competência para ir até aí.
Você não está sendo diplomática? Você não conseguiria criticar publicamente algumas músicas frouxas feitas na Bahia?
Olha... existem coisas ruins sim. Eu respeito, talvez seja essa a diplomacia a que você se refere, porque se existem é porque há pessoas que gostam. Agora não é o tipo de música que toca na minha casa. Lá eu ouço os discos da Daniela, de Carlinhos Brown, da Timbalada, Olodum, Simply Red, Tina Turner, Fred Mercury, Michael Jackson, as coisas mais recentes da Madonna, Gloria Stefan. Gosto de música cubana e andina. E também Santana. Procuro trazer tudo isso e outras coisas para o meu comportamento musical.
Daniela Mercury e Ivete Sangalo são sucessos, vendem bem, vão a programas de televisão, são até garotas-propaganda. A mídia está ao alcance delas. E a você, ao que parece, sobrou apenas o prestígio? É o suficente?
Prestígio é uma coisa que conquistei. Minha carreira, apesar de não ter uma projeção nacional ampla, está crescendo aos poucos. Realmente ainda não tive uma oportunidade, uma exposição maior...
As gravadoras fogem de você ou vice-versa?
Eu não fujo das gravadoras, até porque o artista necessita da gravadora por toda a possibilidade que ela dá de alcançar um público maior. O que pode estar acontecendo comigo são conceitos criados por alguns que ainda hoje podem estar interferindo de alguma forma...
Conceitos?
Eu ouvi dizer, por exemplo, que sou uma cantora difícil. Não sou. Conheço artistas que são mais difíceis. Sou muito competente, muito profissional e isso as gravadoras com as quais trabalhei não têm do que reclamar. Acontece que no começo da minha carreira eu fazia uma coisa totalmente fora do que se fazia no mercado de então. Quando comecei, minha música estava muito à frente do que estava se fazendo. Então me cobravam, achavam que eu tinha que fazer aquilo que se fazia. é que a música baiana não é só música feita para o Carnaval. O afro pop é forte aqui, não adianta não querer ver. Há muitas bandas de rock com coisas interessantes para serem mostradas.
Você faz muitas turnês pelo exterior. É sinal de que sua música lá fora é mais aceita que no Brasil?
Eu acho mesmo é que no Brasil ainda não surgiu a oportunidade, um trabalho bacana para dar um grande impulso na minha carreira.
Eu reparei que aqui em Salvador quando se fala em Margareth parece haver uma reverência, um respeito...
É... Eu vejo isso como uma coisa boa. Por mais diferença que exista entre o meu trabalho e outros trabalhos, há essa coisa de respeito mesmo. E essa coisa chamada respeito eu cultivo muito. E respeito é o que está faltando aos cidadãos brasileiros. Algumas pessoas não respeitam o lugar em que estão, como alguns políticos.
E por falar em político, quem é fã de quem: você do Antônio Carlos Magalhães ou ele de você? Você fez algumas campanhas para ACM...
(rindo bastante) Fiz sim. Negócio é o seguinte: eu sempre fui muito desligada para as coisas de política. Até um certo tempo eu não gostava do ACM. Por outro lado, eu vi nele uma pessoa, mesmo com algumas coisas de ruins que se atribuem a ele, de muita sensibilidade. Ele gosta de beneficiar o povo. E eu o admiro principalmente pelo que vem fazendo pela cultura da Bahia. O governo da Bahia é o que mais investe nas artes. Reconheço o trabalho que o Dr. Antônio Carlos vem fazendo. Realmente mudei de opinião em relação a ele.
De onde vem essa força no palco que faz você ficar gigantesca? É do santo, é de Iansã? (na apresentação do Percpan, Margareth declamou um poema a essa orixá)
É, tenho uma relação com essa força da natureza, essa força boa que tem uma história bonita. Vem de minha ancestralidade e respeito muito porque é mais uma guarnição em minha vida. Agora, eu canto com o corpo inteiro. As pessoas falam realmente que eu ocupo todo o palco. Assim: pelo menos uma hora antes de entrar no palco já começo a mudar. É silêncio. As pessoas podem conversar comigo, posso até corresponder mas não estou naquela onda. É uma coisa que vai chegando, e chega somando. É uma ampliação do sentimento, porque minha ligação com a música é tão forte que... É coisa de Deus!!Margareth Menezes, uma das mais respeitadas vozes femininas da Bahia, se prepara para nova turnê no exterior e lança outro disco este ano
DivulgaçãoMargareth Menezes: Eu canto com o corpo inteiroDivulgaçãoMargareth Menezes foi uma das primeiras artistas a fundir levadas baianas com sonoridades contemporâneas





