A arquitetura de FILMAR
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de dezembro de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Lançado há poucas semanas em DVD, ''Niemeyer - A Vida é Um Sopro'' é longa-metragem a que se assiste com enorme, inefável prazer. Primeiro, pela presença do biografado ilustre e genial, patrimônio vivíssimo da humanidade - já tombado em vida - que cumpre hoje a marca dos cem anos. Depois, pela própria arquitetura do documentário em si, uma justa e rigorosa criação assinada pelo diretor-roteirista gaúcho Fabiano Maciel.
Virtude rara, o filme não pretende ser mais inovador ou genial que seu personagem-tema. E melhor, segue o exemplo do astro internacional da arquitetura moderna quando adota a clareza de linhas narrativas e busca a poética das formas. Desta maneira, o que o espectador obtém em síntese precisa é a (re) construção da história deste ícone da cultura mundial, alguém que contou a história de um povo através da arquitetura porque inspirado na geografia brasileira.
Com seu habitual jeito descontraído de conversar, Oscar Niemeyer vai traçando e ligando diante da câmera os pontos que o levaram a revolucionar a arquitetura do século 20, com a introdução da linha curva - confessadamente inspirada na anatomia feminina, além dos rios e montanhas - e a exploração de novas possibilidades de utilização do concreto armado.
Sua vida também tem presença forte na narrativa, bem como seu ideal de construção de uma sociedade mais justa e as questões metafísicas. Como a insignificância do homem diante do universo.
Fotografado em vídeo digital e 16mm, no Brasil, Argélia, França, Itália, Estados Unidos, Uruguai, Inglaterra e Portugal, ''A Vida é um Sopro'' se abasteceu também por uma coleção de imagens de arquivo raras, muitas delas inéditas. Outro reforço substancial e substantivo foram os depoimentos de personalidades como os escritores José Saramago, Carlos Heitor Cony e Eduardo Galeano, o cineasta Nelson Pereira dos Santos, o ex-presidente de Portugal Mario Soares, o historiador Eric Hobsbawn e o compositor Chico Buarque de Hollanda.
''Seus prédios têm formas tão dinâmicas e curvas tão sensuais que muitos admiradores dizem que, mais do que um arquiteto, ele é um escultor de monumentos''. A afirmação faz parte do documento da consultoria global Synectics, que há dois meses divulgou uma lista reunindo os 100 maiores gênios vivos.
Niemeyer ficou em 9º lugar. O espectador pode até se lembrar desta distinção, quando estiver vendo o filme; mas o que realmente importa é se lembrar de seu perfil humanista, que ele sintetiza assim: ''A vida é mais importante do que a arquitetura. Não creio em nada que pareça eterno. A vida é um sopro, um minuto, e aí tudo se desfaz. Sou realista: o ser humano é tão frágil, tão insignificante; precisamos permanecer humildes. Assim, um arquiteto deve estar pronto a realizar qualquer tipo de encomenda''.


