Londrina buscou a visão atualizada do arquiteto Vilanova Artigas na explosão do ouro verde. A cidade era matuta em meados de 1950, contava com pouco mais de 10 mil habitantes. Na terra roxa da colonização imperava o chapéu atolado, que conviveu com um ícone da modernidade. Com poucos projetos, Artigas insere Londrina numa discussão cosmopolita.
Na cidade, a assinatura de Artigas trouxe uma visão otimista da arquitetura moderna. Dentre as obras mais significativas figuram o Edifício Autolon e Cine Ouro Verde (1948), Casa da Criança (1950), antiga Estação Rodoviária (1950) e residência do ex-prefeito Milton Menezes (1950). Alguns projetos não saíram do papel, como o Hospital Londrina, o Posto de Serviço do Autolon e o Estádio Municipal de Londrina, na verdade, um audacioso complexo esportivo. A pedido da Folha2, os arquitetos e professores Jorge Marão (Universidade Estadual de Londrina), Juliana Harumi Suzuki (Unopar/Cesulon) e a gerente de patrimônio histórico cultural de Londrina, Vanda de Moraes, analisaram o estágio atual de preservação dessas edificações (veja box).
Das obras menores realizadas por Artigas em Londrina, o vestiário do Londrina Country Club ficou completamente descaracterizado. Restam ainda os pilotis do antigo salão social. O projeto do Ginásio de Esportes do clube, em forma de calota, também não foi executado. Ainda consta a assinatura de Artigas no prédio da Santa Casa de Londrina, na entrada do atual Pronto-Socorro.
Juliana Harumi Suzuki, finalizou a tese de mestrado sob o título ‘‘Vilanova Artigas e Carlos Castaldi em Londrina – Uma Contribuição ao Estudo de Arquitetura Moderna no Paranᒒ. O trabalho está prestes a ser apresentado para a banca. Segundo a arquiteta, Artigas deixou em Londrina um conjunto consistente, representando a inserção de Londrina dentro da discussão cosmopolita. ‘‘A Rodoviária serviu para inserir Londrina nos principais livros de história da arquitetura brasileira’’, atesta.
Outro estudioso da obra de Artigas, Jorge Marão, realizou tese de doutorado em 1999 (‘‘Pensar e Fazer Arquitetura – Levi & Artigas). ‘‘Artigas traz um discurso para Londrina extremamente novo, livre, independente, próprio’’, ressalta. O professor explica que Artigas fundiu as correntes organicista e racionalista. O organicismo, protagonizado pelo arquiteto americano Frank Lloyde Wright, privilegia a arquitetura irmanada com a natureza, como uma continuidade do ser humano. A arquitetura organicista se espalha e a casa se apresenta como invólucro do ser. O racionalismo, não se preocupa prioritariamente com as razões naturais. Dá preferência ao uso de pilotis, que eleva a construção, libera para a iluminação e visualização. Inclui também o terraço-jardim, a planta-livre, o brise soleil (quebra sol).
Vilanova Artigas tinha reconhecidos débitos para com o organicismo de Wright em suas obras de 1940 a 1943 e depois com a linhagem de Le Corbusier, na fase entre 1944 e 1952. ‘‘Procurei a forma que fosse a minha forma original e moderna de volume’’, justificou Artigas. Com o progresso técnico, tornou-se possível realizar a unidade entre a forma e função, sem qualquer sacrifício da racionalidade da construção.
As rampas como elementos de integração, uma das características artiguianas, favorece à mudança de ambiente paulatinamente. O arquiteto busca no uso do vidro uma relação mais estreita com o tempo-espaço. A antiga Rodoviária de Londrina é representante do racionalismo, flertando com elementos do organicismo, apresentando referências de duas obras de Oscar Niemeyer: o Iate Clube de Pampulha (trapézio) e o Clube da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro (arcos). ‘‘Tínhamos a certeza de que organizávamos uma linguagem de projeto que a própria Arquitetura brasileira conhecia pouco nessa época’’, disse Artigas.
Muitas de suas obras sofreram a ação da transformação das cidades, tendo sido demolidas ou descaracterizadas. A questão da preservação surge pela inevitabilidade do progresso. ‘‘Um prédio vive se a sociedade dá valor’’, argumenta Marão. De Artigas, apenas a antiga rodoviária e o Cine-Teatro Ouro Verde foram tombados pela coordenadoria de patrimônio da Secretaria Estadual de Cultura. Segundo o próprio Artigas, essa foi a primeira rodoviária que se fez no Brasil e pode ser considerada a primeira obra de arquitetura moderna a ser tombada no País, em 1974.
Como pré-requisito para o tombamento, as edificações precisam apresentar importância no contexto estadual e relevância arquitetônica, representando genuinamente um período. Depois de tombado, qualquer modificação no projeto precisa de anuência do patrimônio. A edificação pode ter um uso diferente, mas não pode ser adulterada.
‘‘As grandes obras de Artigas em Londrina são passíveis de serem revertidas com uma restauração adequada. O problema é uma ação efetiva e vontade política. Essas obras representam uma época especial de Londrina que está sendo perdida’, analisa Juliana Suzuki. A importância de se rever o legado de Vilanova Artigas deixou na cidade se justifica em função de Londrina figurar como poucos exemplos nacionais com linguagem de modernidade implícita.

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