A ARQUITETURA DE ARTIGAS
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de abril de 2001
Francelino França De Londrina 
Londrina buscou a visão atualizada do arquiteto Vilanova Artigas na explosão do ouro verde. A cidade era matuta em meados de 1950, contava com pouco mais de 10 mil habitantes. Na terra roxa da colonização imperava o chapéu atolado, que conviveu com um ícone da modernidade. Com poucos projetos, Artigas insere Londrina numa discussão cosmopolita.
Na cidade, a assinatura de Artigas trouxe uma visão otimista da arquitetura moderna. Dentre as obras mais significativas figuram o Edifício Autolon e Cine Ouro Verde (1948), Casa da Criança (1950), antiga Estação Rodoviária (1950) e residência do ex-prefeito Milton Menezes (1950). Alguns projetos não saíram do papel, como o Hospital Londrina, o Posto de Serviço do Autolon e o Estádio Municipal de Londrina, na verdade, um audacioso complexo esportivo. A pedido da Folha2, os arquitetos e professores Jorge Marão (Universidade Estadual de Londrina), Juliana Harumi Suzuki (Unopar/Cesulon) e a gerente de patrimônio histórico cultural de Londrina, Vanda de Moraes, analisaram o estágio atual de preservação dessas edificações (veja box).
Das obras menores realizadas por Artigas em Londrina, o vestiário do Londrina Country Club ficou completamente descaracterizado. Restam ainda os pilotis do antigo salão social. O projeto do Ginásio de Esportes do clube, em forma de calota, também não foi executado. Ainda consta a assinatura de Artigas no prédio da Santa Casa de Londrina, na entrada do atual Pronto-Socorro.
Juliana Harumi Suzuki, finalizou a tese de mestrado sob o título Vilanova Artigas e Carlos Castaldi em Londrina Uma Contribuição ao Estudo de Arquitetura Moderna no Paraná. O trabalho está prestes a ser apresentado para a banca. Segundo a arquiteta, Artigas deixou em Londrina um conjunto consistente, representando a inserção de Londrina dentro da discussão cosmopolita. A Rodoviária serviu para inserir Londrina nos principais livros de história da arquitetura brasileira, atesta.
Outro estudioso da obra de Artigas, Jorge Marão, realizou tese de doutorado em 1999 (Pensar e Fazer Arquitetura Levi & Artigas). Artigas traz um discurso para Londrina extremamente novo, livre, independente, próprio, ressalta. O professor explica que Artigas fundiu as correntes organicista e racionalista. O organicismo, protagonizado pelo arquiteto americano Frank Lloyde Wright, privilegia a arquitetura irmanada com a natureza, como uma continuidade do ser humano. A arquitetura organicista se espalha e a casa se apresenta como invólucro do ser. O racionalismo, não se preocupa prioritariamente com as razões naturais. Dá preferência ao uso de pilotis, que eleva a construção, libera para a iluminação e visualização. Inclui também o terraço-jardim, a planta-livre, o brise soleil (quebra sol).
Vilanova Artigas tinha reconhecidos débitos para com o organicismo de Wright em suas obras de 1940 a 1943 e depois com a linhagem de Le Corbusier, na fase entre 1944 e 1952. Procurei a forma que fosse a minha forma original e moderna de volume, justificou Artigas. Com o progresso técnico, tornou-se possível realizar a unidade entre a forma e função, sem qualquer sacrifício da racionalidade da construção.
As rampas como elementos de integração, uma das características artiguianas, favorece à mudança de ambiente paulatinamente. O arquiteto busca no uso do vidro uma relação mais estreita com o tempo-espaço. A antiga Rodoviária de Londrina é representante do racionalismo, flertando com elementos do organicismo, apresentando referências de duas obras de Oscar Niemeyer: o Iate Clube de Pampulha (trapézio) e o Clube da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro (arcos). Tínhamos a certeza de que organizávamos uma linguagem de projeto que a própria Arquitetura brasileira conhecia pouco nessa época, disse Artigas.
Muitas de suas obras sofreram a ação da transformação das cidades, tendo sido demolidas ou descaracterizadas. A questão da preservação surge pela inevitabilidade do progresso. Um prédio vive se a sociedade dá valor, argumenta Marão. De Artigas, apenas a antiga rodoviária e o Cine-Teatro Ouro Verde foram tombados pela coordenadoria de patrimônio da Secretaria Estadual de Cultura. Segundo o próprio Artigas, essa foi a primeira rodoviária que se fez no Brasil e pode ser considerada a primeira obra de arquitetura moderna a ser tombada no País, em 1974.
Como pré-requisito para o tombamento, as edificações precisam apresentar importância no contexto estadual e relevância arquitetônica, representando genuinamente um período. Depois de tombado, qualquer modificação no projeto precisa de anuência do patrimônio. A edificação pode ter um uso diferente, mas não pode ser adulterada.
As grandes obras de Artigas em Londrina são passíveis de serem revertidas com uma restauração adequada. O problema é uma ação efetiva e vontade política. Essas obras representam uma época especial de Londrina que está sendo perdida, analisa Juliana Suzuki. A importância de se rever o legado de Vilanova Artigas deixou na cidade se justifica em função de Londrina figurar como poucos exemplos nacionais com linguagem de modernidade implícita.


