A arma dos derrotados
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de setembro de 1998
Zeca Corrêa Leite 
Muito pára-choque de caminhão carregou estrada afora a frase filosófica de que inveja é a arma dos mais fracos. Essa arma, ou essa fraqueza, ninguém admite ter experimentado. Matando muita gente de inveja, o jornalista e escritor Zuenir Ventura saiu a campo, pesquisou e escreveu Mal Secreto, seu mais novo sucesso, que será lançado hoje, às 14h30, na sede do Curso Decisivo, na Rua Comendador Araújo.
Foram dois anos de empenho, viagens, investigações, entrevistas, visitas a consultórios de psiquiatras, terreiros espíritas e confessionários católicos. A cortina não se desprende tão facilmente, como provou a pesquisa do Ibope: 84% dos consultados afirmaram de pé junto jamais ter sentido uma fisgada do sentimento tão humano e ao mesmo tempo tão oculto.
Quando saía à caça de material para Mal Secreto, ainda no início, o escritor foi acometido por uma dura surpresa - estava com câncer na bexiga. Foram quatro operações para se ver livre de qualquer vestígio da doença, mas esse ir e vir dos consultórios e das mesas de cirurgia acabaram entrando no livro, como um mal explícito.
Com essa mistura de uma realidade sua, com a realidade daquilo que encontrava em suas andanças e mais os novelos de aparências múltiplas foi que Zuenir Ventura escreveu o livro, publicado pela Editora Objetiva. Em sua coluna no Jornal do Brasil, ele comentou com os leitores: áO resultado não é um trabalho teórico, conceitual, nem ensaístico, mas uma reportagem, tanto que o livro começa dizendo que não é sobre a inveja, mas sobre alguém escrevendo sobre a inveja.
Lançado há poucas semanas, Mal Secreto ganhou espaços em toda a imprensa nacional, e elogios de todo lado. Este é o primeiro título da coleção Plenos Pecados, da Editora Objetiva, que estará colocando no mercado nos próximos meses outros seis volumes, assinados por gente escolhida a dedo. Cada qual esmiuçando o pecado capital que escolheu.
Assim como Ventura ficou com a inveja, Luís Fernando Veríssimo irá abordar - através de um romance - a gula (leia entrevista nesta página), o escritor e roteirista José Roberto Torero a ira, João Ubaldo Ribeiro a luxúria, João Gilberto Noll a preguiça, o argentino Tomás Eloy Martinez a soberba e o chileno Ariel Dorfman a avareza.
O leitor percorre os bastidores sociais desse grande teatro que é a vida junto do jornalista, e através dele acaba conhecendo Kátia num centro de terreiro do Rio, morena estonteante que protagoniza uma história de amor, ódio e inveja. Jornalismo na mais pura acepção da palavra e ficção literária se cruzam nas páginas do livro, confundindo até mesmo os olhos e mentes mais atentos. Onde começa a ficção e termina a realidade?
Pequenas armadilhas de que se serve o autor também destas definições: O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde. Para Zuenir este sentimento é tão universal quanto o amor, é a contraface do amor. Com a inveja você só quer destruir. O melhor antídoto para ela é o amor.
Mal Secreto - de Zuenir Ventura. Lançamento da Editora Objetiva, 268 páginas, R$ 22,00 nas livrarias. Na tarde de autógrafos, hoje, às 14h30, no Curso Decisivo (Rua Comendador Araújo, 327, telefone 323-4371) estará ao preço de R$ 15,00.


