O local a se chegar é Tar, cidade instalada num ponto qualquer da imaginação. Na penosa trajetória, um homem arrasta uma mulher paralítica em sua cama hospitalar. Ele a ama. Ela, de certa forma, também nutre algum amor. O homem, no entanto, alterna seu amor maior com hostilidade e sadismo. Loucura e lucidez, amor e desamor, crueldade e lirismo, afeição e rejeição, todos esses sentimentos antagônicos são apresentados de maneira impactante no espetáculo ‘‘Fando e Lis’’, cuja montagem acontece hoje, às 21 horas, no espaço Alternativo do Filo.
Em cena, o grupo londrinense Boca de Baco. Que, numa empreitada ousada, se entregou a um dos textos mais densos do dramaturgo espanhol Fernando Arrabal, cuja tradução ficou a cargo do jornalista Marcos Losnak. Para dirigi-los, os atores do grupo foram buscar a experiência do respeitado diretor Luiz Valcazaras, radicado em São Paulo – ele é quem dirigiu, por exemplo, a veterana atriz Berta Zemel em ‘‘Anjo Duro’’.
A história é seguinte: Fando (Beto Passini) se dirige à cidade de Tar empurrando Lis (Jackeline Seglin). Durante o percurso, encontram-se com Toso (Nivaldo Lino), Namur (Paulo Munhoz) e Mitaro (Walter Balthazar), catadores de papel também determinados a chegar a Tar. Nada os orienta. Apenas um possível laivo de intuição poderá levá-los ao local desejado. E enquanto lá não pisam os pés, enfrentam-se, expõem-se, contradizem-se, confrontam idéias, vivem à margem das próprias sombras.
No centro das atenções, claro, Fando e Lis. Ele com um discurso amoroso ao qual vai acrescentando fortes doses de sadismo até o desfecho funesto. Lis, inválida e com seu mundo atado à cama, não vê outra alternativa que não sentir na carne e na alma afagos e hostilidades. O diretor Luiz Valcazaras imprimiu austeridade ao conceber o espetáculo. Não à toa, às vésperas da montagem iniciar temporada, em junho do ano passado, adiantou tratar-se de um espetáculo que iria incomodar. E incomoda, de fato – raras são as pessoas que saem da apresentação sem ter sentimentos e/ou intelecto revirados. Ou seja, ninguém volta para casa apático.
A aridez da montagem também pode ser conferida no cenário. Pelo chão, toneladas de pedra brita espalhadas, um banco, o carrinho dos andarilhos, tocos de madeira. Figurinos, trilha sonora e iluminação contribuem para passar ao público o peso do ambiente em que o espetáculo se desenvolve.
‘‘Fando e Lis’’ é fruto de investimentos via Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Depois da temporada em Londrina, o grupo Boca de Baco ganhou estradas e prêmios. Até agora, foram 25 apresentações nas seguintes cidades: São Paulo, Guarapuava, Campo Mourão, Cascavel, Bauru (SP), Florianópolis e Recife – o que totaliza um público de aproximadamente quatro mil pessoas. A participação de ‘‘Fando e Lis’’ em três festivais competitivos rendeu nove prêmios (entre eles o de melhor espetáculo) e outras 12 indicações. O grupo foi o único do Paraná convidado a participar do 4º Festival Recife do Teatro Nacional, no ano passado.
Neste ano, o grupo inaugurou o Núcleo de Investigação Teatral de Londrina que pesquisa o processo homônimo desenvolvido também em São Paulo por Luiz Valcazaras.
Serviço
‘‘Fando e Lis’’ – Espetáculo com o grupo Boca de Baco, de Londrina. Texto: Fernando Arrabal. Tradução: Marcos Losnak. Direção e concepção: Luiz Valcazaras. Assistência de direção: Cláudio Rodrigues. Trilha Sonora: Marco Turetta e Henrique Bittencourt. Iluminação: Luiz Valcazaras. Cenário, figurino e adereços: Mauro Rodrigues. Duração: 50 minutos. Patrocínio: Lei Municipal de Incentivo à Cultura, APCEF, CEDDO, Rio Sul e Hospital do Otorrino de Londrina.

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