Nos dias atuais são cada vez mais frequentes pesquisas de fusão entre as mais variadas formas de arte. Sob o difuso manto de vagos nomes - coisas como ‘‘transculturalismo do pós-moderno’’ - essas experiências nem sempre levam em conta que a estética não é regida pelas mesmas regras que a matemática. Para a construção de um espetáculo utilizando experiências de fusão, não basta pegar um pedacinho de cada arte, colocar tudo num caldeirão, dar uma mexida e jogar a mistura no palco. Metade de duas artes não cria necessariamente uma terceira arte inteira.
O espetáculo ‘‘De Areia e Mar’’ apresentado no Filo 2000 pela Companhia Arquitetura em Movimento sofre deste mal. Defendendo um trabalho de fusão entre dança e artes plásticas, revela-se conceitualmente forte e, ao mesmo tempo, praticamente fraco.
‘‘De Areia e Mar’’ enfrenta o desafio de unir uma arte temporal, a dança, e uma arte espacial, artes plásticas. A solução encontrada é mágica: a transformação de uma arte espacial em temporal. Para isso, retira a perenidade das artes plásticas. Fazendo uso de areia, o artista Richard Seabra cria imagens gráficas no palco para logo em seguida serem desfeitas. O próprio uso da areia - um componente instável pela sua vulnerabilidade diante das intempéries - reforça essa intenção. O resultado, coberto de suavidade e simplicidade, é extremamente poético.
Os problemas do espetáculo começam a partir do momento em que a coreografia executada por Andrea Jabor não se relaciona com a poética da areia. Caminha como se estivesse testando limites do improviso, onde o movimento presente está desvinculado do movimento antecedente e não está ligado ao movimento posterior. Nesse quadro, a narrativa corporal caminha sem uma direção referencial. A impressão que invade o espectador é de que está diante de uma dança fria onde os sentimentos não são claros e, como consequência, não emocionam. A bailarina se converte em codjuvante das imagens de areia - e esta assume o papel principal.
Um espetáculo cênico, do ponto de vista do espectador, não é aquilo que o artista pensa, é aquilo que o espectador vê, ouve e sente. Os trabalhos experimentais são extremamente importantes e necessários, mas isso não significa que precisem ficar encarcerados em suas experiências fazendo delas um fim em si mesmo. Nesse sentido, ‘‘De Areia e Mar’’ se assemelha a um passarinho que, de asas abertas, se propõe a voar mas não voa, não sai do chão. Apesar de ser um trabalho interessante, sua beleza não é potencializada, não explode em revelação.

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