A animação, nas alturas
Décimo filme da Pixar, ''Up'' confirma todas as virtudes que fizeram a merecida fama do mais ilustre e criativo estúdio de animação digital. O filme permite o desfrute de uma história simultaneamente romântica e clássica, digna das maiores invenções do cinema de aventuras.
Não são poucos os que acreditam que durante o cinema silencioso foram assentadas as bases mais sólidas da linguagem cinematográfica. Nomes como Fritz Lang, Howard Hawks, John Ford, Yasujiro Ozu, Alfred Hitckcock, Frank Capra, entre outros, criaram uma obra com regras construídas por eles mesmos, baseada no domínio das imagens sobre os diálogos.
O pessoal da Pixar Animation Studios, agora uma subsidiária dos legendários estúdios Disney, com certeza é composto por discípulos geniais, mas também aplicados, que estão utilizando todas aquelas regras criadas pelos grandes mestres da história do cinema. O resultado deste processo é uma narrativa extraordinária, capaz de combinar todas as possibilidades tecnológicas do gênero com a mais pura narrativa clássica.
Querem um exemplo? Prestem atenção no prólogo desta estréia nacional de hoje, ''Up - Nas Alturas'' (confira a programação de cinema na página 2), um verdadeiro prodígio cinematográfico. O que se conta durante este curto espaço de tempo é uma história de amor, a do herói Carl e de sua mulher, Ellie. Não há diálogos, mas apenas imagens. Com clareza narrativa e capacidade de síntese admirável, transmite-se a passagem do tempo, a rotina, a frustração, o envelhecimento, a morte de um dos personagens, tudo isso contado em cerca de dez minutos. Seria deprimente, para uma comédia feita para a garotada? Não, de maneira alguma.
Uma demonstração de talento e humor no retrato de um homem que, mesmo transformado num viúvo septuagenário, anacrônico e amargurado, conserva algo do garoto que se apaixonou pela menina aventureira. O que se segue mantém sempre o bom humor em alta, mas, em outra originalidade própria da Pixar, conjugado a um filme estritamente de aventuras. Carl, ao lado de um pequeno e improvável companheiro, põe sua casa para voar movida a bexigas e parte em busca de um sonho infantil: chegar às Cataratas do Paraíso, localizada em algum recanto perdido da América Latina, onde também se encontra um explorador ensandecido - o ótimo vilão Charles Muntz, que repudiado pela humanidade se converteu numa espécie de Indiana Jones do lado obscuro da Força...
Através de uma narração franca, direta e divertida, o diretor Peter Docter encontrou a linha exata entre o cinema para crianças e o cinema para adultos. Para os menores, o sabor da aventura cheia de peripécias. Para os maiores, uma sensível viagem emocional capaz de operar milagres de rejuvenescimento na terceira idade. (C.E.L.J.)





