Nelson Sato
De Londrina
Ná Ozzetti é o xodó dos exigentes. Com um novo disco nas lojas, a cantora paulistana revela-se uma anfitriã de sutilezas, construindo a cada passo uma obra oposta aos ditames do mercado. Estopim, quarto álbum de sua carreira solo, traz uma unidade espantosa de temas, arranjos e texturas ao longo das faixas.
Produzido pela cantora em parceria com seu irmão Dante Ozzetti, o disco reúne 14 composições inéditas, sendo algumas de autoria da dupla e as demais assinadas por Luiz Tatit, Itamar Assumpção, José Miguel Wisnik, Cacique e Antonio Correia. Não é, convém avisar aos afoitos, um CD com apelos pop.
Não contém, aliás, nenhuma canção colante que conquiste já na primeira audição. É o típico álbum para ser absorvido aos poucos descobrindo aqui e ali as tramas percussivas, a harmonia dos violões e cellos e a delicadeza interpretativa da ex-vocalista do Grupo Rumo.
É ao Rumo, aliás, que remete a faixa-título: ‘‘Nosso amor / Ia bem / Não tão bem / Mas enfim / Bem normal / Complicou quando eu comentei / Que era tão triste o seu olhar / ‘Meu olhar, como assim? / A tristeza vem de você pra mim / A tristeza de um olhar / Vem do outro olhar / Vem de tanto olhar’ / Como assim? / ‘Pelo olhar / Pode haver um motim’ / Não entendi / Mas senti / Que era o fim’’ – diz o trecho final da canção, retomando o canto falado que foi marca registrada do antigo grupo.
Não por acaso, a música traz participação especial de Luiz Tatit nos vocais. Suzana Salles é outra que empresta sua voz ao disco compondo um dueto caipira com Ná em ‘‘Princesa Encantada’’. Como se vê, o projeto sugere uma reunião de turma, já que agrupa alguns dos expoentes e discípulos da vanguarda paulista – o célebre movimento que sacudiu a MPB no começo da década de 80 e que neste trabalho se manifesta particularmente através de nomes como Itamar Assumpção (no primeiro caso) e José Miguel Wisnik (no segundo).
Ná Ozzetti deixou o Rumo, com o qual gravou sete álbuns, em 1991. Durante um certo período ainda tentou manter-se no grupo e levar a carreira solo, chegando a lançar seu primeiro trabalho próprio ainda em 1988. O disco trazia uma versão de ‘‘Sua Estupidez’’, de Roberto Carlos, tão memorável quanto aquela gravada anteriormente por Gal Costa.
Com a estréia, faturou o Prêmio Sharp de cantora revelação. Em 94, voltou a erguer o troféu com o álbum Ná, só que dessa vez em duas categorias: melhor disco de pop-rock e melhor arranjador (Dante Ozzetti). No ano passado, o título foi relançado pelo selo Núcleo Contemporâneo. Em 96, ela prestou uma homenagem a Rita Lee a convite da gravadora Dabliú.
Lançou o CD Love Lee Rita, no qual interpreta apenas músicas da titia do rock brasileiro como ‘‘Mania de Voc꒒, ‘‘Doce Vampiro’’ e ‘‘Mamãe Natureza’’. De lá para cá, Ná Ozzetti fez shows eventuais embutindo as novas composições ao repertório de palco. Em dezembro, a maioria das músicas do novo disco já estava ‘‘testada’’ e pronta para o registro, já que o time de instrumentistas seria o mesmo que entraria no estúdio.
As gravações foram feitas ao vivo, em tomadas únicas, com todos os músicos tocando juntos. Nesta empreitada, Ná contou com Marta Ozzetti (flauta), Kiko Moura (violão), Caíto Marcondes (percussão), Geraldinho Vieira (baixo), Fabio Tagliaferri (viola) e Dante Ozzetti (violão e arranjos). A mixagem foi feita por Luiz Paulo Serafim.
O resultado pode ser conferido agora pelo público. Estopim chega ao mercado com uma tiragem de duas mil cópias. É o primeiro título da Ná Records, selo que a cantora fundou para poder lapidar mais ainda seus diamantes musicais.

O disco ‘‘Nᒒ, o segundo de sua carreira, foi premiado com o prêmio Sharp na categoria pop-rock. Quanto de pop existe em ‘‘Estopim’’?
Esse disco é tão acessível quanto vários que foram lançados recentemente e que venderam bem. Ele é superatual, traz uma sonoridade pop que você pode ouvir por exemplo nos discos de Paulinho Moska e do Lenine, embora este traga mais elementos eletrônicos. Mas me vejo incluída na geração dele. Na verdade, uma coisa fundamental é o tratamento do som. O Luís Serafim, que mixou o disco, já trabalhou com Dudu Marote e João Marcelo Bôscoli. Ele conseguiu traduzir o material para um som facilmente assimilável.
Você acha que seu jeito de interpretar ainda traz influências do trabalho desenvolvido no grupo Rumo?
Acho que sim, e acho isso muito bom. Mas o canto falado foi incorporado, ele chega espontaneamente, não é mais uma coisa pensada. Por outro lado, tenho preocupações estéticas e artísticas, mas não acho que a alma de meu trabalho seja de vanguarda. Já no Rumo a postura era radical, de experimentalismo mesmo.
Que avaliação você faz da vanguarda paulista, que aliás já vai completar 20 anos?
Todos naquela época tinham uma percepção estética do trabalho, não havia uma visão mercadológica. O que ocorreu foi que as gravadoras apostaram na onda do rock, e quem não se encaixava naquele contexto ficou marginalizado. Mas não fomos os únicos. Todas as frentes musicais perderam espaço, inclusive a MPB. A gente ficou mais visada, porque talvez estivéssemos mais expostos na mídia. Mas nos anos 90, houve um retorno da música brasileira com a volta dos grandes nomes e o surgimento de uma nova geração. A diferença é que antes a conversa girava em torno de arte, e hoje o interesse dos artistas está muito voltado para o mercado.
Seus atuais parceiros ou fizeram parte daquela turma ou são discípulos ...
Não tenho nenhuma intenção de trabalhar com um grupo fechado de pessoas. É que eles têm naturalmente uma história musical que cruza com a minha. Pra mim, é um privilégio contar com eles como parceiros. Cada um traz um universo particular muito rico. Os letristas são geniais. O Itamar é espetacular. O Luiz (Tatit) e o Zé (José Miguel Wisnik) são ótimos. Todos têm uma linha bem definida na elaboração das letras, o que dá unidade ao disco junto com a concepção dos arranjos do Dante. Acho que todos eles merecem muito mais destaque do que têm. E se eu posso contribuir para isso, faço com o maior prazer.
Você chegou a se apresentar na Alemanha acompanhando a banda do Itamar Assumpção e depois em Paris num show próprio, em que o Itamar e o grupo Duofel também se apresentaram. Como foi a recepção, e como você vê a atual badalação em torno da música brasileira lá fora?
Aqueles shows foram ótimos. No caso de minha apresentação, a platéia era formada em sua maioria por franceses, e a receptividade foi muito boa. O show foi realizado na Hot Brass, uma casa noturna já extinta em que se apresentavam os maiores nomes do jazz. Minhas músicas entraram na programação de quatro rádios locais. Vi, mesmo, que existe um grande interesse pela música brasileira, principalmente na Europa. Não chega a atingir a massa, mas a fatia do público mais informado. Mesmo assim, ele é bastante numeroso.
Você criou um selo próprio para lançar seu disco. É a saída mais viável hoje para os músicos brasileiros?
Tomei essa decisão porque já sou um nome conhecido no mercado, com uma carreira já consolidada. Não estou começando do zero. Então, é vantajoso.
O que, para você, define uma grande cantora?
Há vários quesitos que caracterizam uma grande intérprete. Alguns podem aparecer no trabalho de uma cantora e não no de outra, e vice-versa. O mais importante é a inteligência musical, aliada ao material que ela possui. O tamanho da voz não é tão importante. O timbre sim.

Letra de ‘‘Capitu’’
(De Luiz Tatit)
De um lado vem você com seu jeitinho
hábil, hábil, hábil
e pronto!
me conquista com seu dom
de outro esse seu site petulante
www
ponto
poderosa ponto com
é esse o seu modo de ser ambíguo
sábio, sábio
e todo encanto
canto, canto
raposa e sereia da terra e do mar
na tela e no ar
você é virtualmente amada amante
você real é ainda mais tocante
não há quem não se encante
um método de agir que é tão astuto
com jeitinho alcança tudo, tudo, tudo
é só se entregar, é não resistir, é capitular
Capitu
a ressaca dos mares
a sereia do sul
captando os olhares
nosso totem tabu
a mulher em milhares
Capitu
No site o seu poder provoca o ócio, o ócio
um passo para o vício, vício, vício
é só navegar, é só te seguir, e então naufragar
Capitu
feminino com arte
a traição atraente
um capítulo à parte
quase vírus ardente
imperando no site
CapituA cantora Ná Ozzetti está lançando o CD ‘‘Estopim’’, o quarto de sua carreira
DivulgaçãoNá Ozzetti: em companhia da vanguarda paulista no CD que acaba de lançarDivulgaçãoNovo álbum combina tramas percussivas, harmonia de violões e cellos e delicadeza interpretativa

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