A amizade do velho quarteirão
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de agosto de 2001
Marcos Losnak<BR>De Londrina<BR>Especial para a Folha2 
No início, a única pessoa capaz de suportar um garoto é sua mãe. Seu pai nem tanto. Quando a chateação é muita, ele geralmente pula fora. Mãe não. Suporta tudo e encontra até um belo sentido para a situação.
No decorrer dos anos, a única pessoa capaz de suportar um homem é seu amigo. Sua mulher não resiste por muito tempo. Quando a chateação ganha maiores proporções, ela simplesmente cai fora. Amigo não. Suporta o absurdo e, quando necessário, dá umas porradas no sujeito. E fica ali, olhando os espasmos da dor, procurando o melhor momento para fazer um curativo.
Amizade é uma tema fácil de se tornar piegas em qualquer forma de arte. Música e literatura são recordistas. Sentimentalismo açucarados se propagam como bactérias da indigestão por letras e partituras. Chegam ao ponto de destruir o próprio sentido de amizade. Não que a temática seja difícil e complexa, mas que precisa ser encarada como uma argamassa da realidade com o simbólico.
O dramaturgo londrinense Mário Bortolotto faz desse tema uma constante em seu novo volume de textos teatrais, ''Sete Peças - Volume III'', lançado pela Art Atrito Editorial. O livro reúne textos principalmente escritos nos últimos anos, como ''Getsêmani'', ''Gravidade Zero'' e ''Tempo de Trégua''. Traz também histórias de outras épocas, como a primeira peça escrita por Mário, ''À Meia Noite um Solo de Sax na Minha Cabeça'', em 1983.
As histórias de Bortolotto vão além do suporte teatral. ''Sete Peças'' reforça essa idéia. Os textos pode ser lidos como literatura pura e simples, com se fossem contos fundamentados em diálogos. A agilidade narrativa segue um ritmo constante, onde a velocidade das palavras fluem sem arestas como pedra rolando montanha abaixo.
A amizade sempre esteve presente nos textos de Bortolotto. Isso fica mais evidente em ''Sete Peças'' onde quatro peças, cada uma a seu modo, trabalham com o tema: ''Diário das Crianças do Velho Quarteirão'' (1994), ''Efeito Urtigão'' (2000), ''À Meia Noite um Solo de Sax na Minha Cabeça'' (1983) e ''Getsêmani'' (2000). Não de uma modo objetivo e direto, mas como essência guardada atrás da cortina, recolhida nas rotundas. Sem sentimentalismo. Uma amizade pautada pelas diferenças, não pelas igualdades, o que deixa tudo mais interessante.
Os textos de ''Sete Peças'', como toda a obra de Mário, são pautados pela cinismo, pela ironia, pelo deboche e pelo humor. Ao mesmo tempo consegue inserir, mas entrelinhas uma poética iluminada. Chega até parecer paradoxal. Na realidade o autor desenha personagens escorraçados da sociedade bovina para fazer germinar anti-heróis, pessoas que desejam apenas viver suas vidas, da maneira que elas são. Não apostam na utopia de salvar o mundo, mas na necessidade de não torná-lo pior. Um aquário de ironia.
O volume traz uma novidade, o único monólogo escrito por Bortolotto, ''Gravidade Zero'' (1999). Trata-se de um pequeno texto onde o dramaturgo deixa um pouco de lado o humor corrosivo para investigar um tema subjetivo: a relação do homem com o ar, mas especificamente com o vôo. Uma série de impressões são apresentadas como tentativa de entender o ato de abandonar a terra para residir no ar. A vertigem, por exemplo, é apresentada como instrumento de navegação: ''A vertigem é um sentimento mais violento que a paixão. Só o amor supera a vertigem. Mesmo porque quando você está amando, você já vive em estado de constante vertigem. A pessoa que está amando sempre está prestes a cair... de um penhasco, do Empire State, ou do alto de sua pretensão de contar com a reciprocidade da pessoa amada.''
O crítico teatral Sebastião Miralé, que assina o prefácio do livro, faz uma interessante análise dos textos teatrais de Bortolotto publicados nos três volumes lançados pela Art Atrito Editorial. Miralé, apresenta as características básicas do universo em que trafega a escritura do dramaturgo, a influência da cultura de massa, da música, do cinema, dos clichês, da violência urbana, etc. E um ponto pouco lembrado: a maneira como ele centra sua atenção no universo masculino.
''Sete Peças'', mesmo com suas irregularidades, deixa claro que peças de Mário não são meros textos teatrais, mas literatura. Podem ser lidas como contos e novelas que falam do mundo contemporâneo. Do homem atual que, diante da falta de perspectivas, chuta o balde e se agarra às pessoas mais próximas do abismo. Onde o conflito, uma espécie de lei natural, não abole o encontro.
q ''Sete Peças - Volume III'', De Mário Bortolotto, prefácio de Sebastião Miralé, Atrito Art Editorial, 196 páginas, R$ 15,00.


