A AMIZADE COMO ATO HERÓICO
Marcos Losnak
Especial para a Folha 2
Existem certos sentimento que grudam de maneira estranha na pele de um homem. Por mais que ele se lave e se escove, não consegue se livrar deles. Sua última saída seria arrancar a própria pele. Mas nem assim consegue ficar livre de tais sentimentos, pois eles, com o tempo, impregnaram os músculos do corpo. Seu remédio extremo seria se desfazer dos músculos. Mas, da mesma forma, não consegue a liberdade, pois os sentimentos já ocuparam seus ossos. Como último recurso, pode abandonar os ossos, enterrá-los no deserto. Mas toda e qualquer tentativa revela-se inútil, pois eles já fazem parte de seu espírito, de sua alma.
Esses sentimentos que impregnam de maneira perturbadora a existência de um homem permeiam as personagens de As Brasas, belo romance do escritor húngaro Sándor Márai (1900 - 1989) que a Editora Companhia das Letras acaba de lançar. Sentimentos que só o tempo revela o que são e porque colaram na pele, músculos, ossos e, por fim, na alma.
As Brasas narra o encontro de dois amigos, Henrik e Konrad, que permanecem 41 anos sem se verem, sem se falarem. No momento do encontro, a história de ambos é revisitada, a origem da amizade e o motivo do distanciamento.
Henrik e Konrad se conheceram ainda na infância, nos corredores da escola militar. Uma forte e intensa relação se desenvolve, atravessa a juventude e chega à idade madura. Tudo vai bem até que um belo dia, durante uma caçada nos arredores do castelo da família, Henrik tem a impressão que o amigo aponta a arma em sua direção e está próximo de matá-lo. No dia seguinte, misteriosamente, Konrad desaparece, abandonado a carreira militar e a cidade sem motivo aparente.
Tentando entender os acontecimentos, Henrik descobre fatos desconhecidos e ocultos. Descobre, por exemplo, que o fiel amigo era amante de sua esposa. Passa a levar uma vida solitária remoendo os acontecimentos em busca de uma definição de honra e um conceito de amizade. Começa a encarar o destino trágico como obra individual: Os homens contribuem para o próprio destino, determinam certos fatos que vão acontecer com eles. Chamam o destino, apertam-no contra si e não se separam mais dele. Agem desse modo mesmo sabendo desde o início que esses atos terão efeitos nefastos. O homem e seu destino se realizam reciprocamente, moldando-se um no outro. Não é verdade que o destino se introduz às escondidas em nossa vida: entra pela porta que nós mesmos escancaramos, pondo-nos de lado para convidá-lo a entrar. Na verdade não há criatura suficientemente forte e inteligente para saber afastar, com palavras e fatos, o destino infausto que, segundo uma lei implacável, deriva de sua índole e de seu caráter.
Depois de 41 anos de distanciamento, Konrad realiza uma visita a Henrik. Ambos estão com mais de 80 anos e antes de morreram precisam esclarecer o passado. O que seria um duelo de argumentos, onde a verdade seria a mais valiosa das medalhas, se transforma numa espécie de monólogo onde Henrik expõe tudo que descobriu e refletiu nas últimas décadas de isolamento. Realiza um radiografia dos sentimentos dos três pessoas envolvidas, de si próprio, do amigo e da esposa, Kriztina. Se nega terminantemente a permanecer na superfície dos fatos e sentimentos, percorre com profundidade os acontecimentos em nome de uma reflexão sobre a honra das paixões, sobre a ética da amizade e a frieza da vingança.
Existem algumas semelhanças entre o romance As Brasas, publicado originalmente em 1942, e o conto Sarapalha do escritor mineiro Guimarães Rosa (1908 - 1967) publicado em 1946 dentro do volume Sagarana. A semelhança não está na linguagem, mas, levando em conta as devidas proporções, no enredo, na trama. Em ambas histórias, dois velhos amigos conversam, no final da vida, sobre o passado. Ambos amaram a mesma mulher, sendo que um deles descobre tardiamente tal fato. A vingança mina a amizade mas não abole o passado. Em Sarapalha há o delírio provocado pela febre que tumultua a realidade. Em As Brasas há a razão que deixa a realidade delirando pelo excesso de clareza.
As personagens de As Brasas são escravas do passado, reféns dos próprios sentimentos e do tempo em que vivem. Chegam a considerar aqueles que morrem, ou se matam (como Kriztina), como mais honestos pois todo homem que sobrevive a alguém comete uma traição. E toda paixão verdadeira seria sempre uma paixão sem esperança, pois, caso contrário não seria paixão mas um simples pacto, um acordo sensato, uma troca de interesses banais. Nesse quadro, a amizade deixa de ser uma simples relação humana para se tornar algo maior, um ato heróico.
As Brasas de Sándor Márai, Editora Companhia das Letras, tradução de Rosa Freire dAguiar, 174 páginas, R$ 22,00.





