A paixão é um sedutora videira. Com seu incontrolável poder, deixa homens e mulheres enlouquecidos com sede de seus frutos. Os apaixonados são capazes de qualquer coisa para degustar as uvas do desejo.
A experiência mostra que, provando os frutos da paixão, os amantes permanecem ligeiramente atordoados. Inebriados, caem num profundo sonho embalados pelo sono das papoulas. Quando finalmente acordam, não conseguem se livrar dos caroços de uva presos entre os vãos dos dentes. A cada dia, os caroços passam a incomodar mais e mais. Com o tempo, a dor ocupa o lugar da paixão.
Quando isso acontece, os amantes já estão casados, com uma casa cheia de eletrodomésticos, carro na garagem e, claro, com dois filhos pedindo a roupa do Batman de presente de aniversário. A separação torna-se inevitável e, ao mesmo tempo, complicada.
Mais do que ironia do destino, trata-se de um fato que a cada dia torna-se rotina na sociedade contemporânea. Amores e desamores sempre existiram através dos tempos, mas a coragem ou o desprendimento em desfazer um casamento nunca foi tão grande como nos dias de hoje.
Em seu novo romance, ‘‘Intimidade’’, o escritor inglês Hanif Kureishi focaliza o universo do fim dos casamentos sem baldes de água com açúcar. De forma direta, reflete sobre a separação de casais a partir do exercício da liberdade ou, mais especificamente, do cultivo da intimidade individual.
Sobre a escolha do tema, Hanif Kureishi declarou: ‘‘Casamento é uma daquelas coisas que as pessoas gostariam que continuassem para sempre, mas o fato é que a maioria deles acaba. Sem dúvida é perturbador quando um casamento vai mal. E, quando isso acontece, as pessoas tendem a se comportar de maneira não muito agradável. Falar disso incomoda as pessoas. Faz com que elas questionem a si mesmas, seus relacionamentos e a qualidade de suas vidas em comum.’’
Lançado pela Editora Companhia das Letras, ‘‘Intimidade’’ (Intimacy) é narrado pelo personagem Jay, um homem de meia-idade que, após seis anos de casamento, constata que a relação chegou ao fim. A ausência de diálogo acelera sua decisão – ele abandona tudo, a casa, a mulher e os dois filhos pequenos.
Jay é uma pessoa que acompanhou as transformações dos anos 60 pautadas pela trilogia ‘‘sexo, drogas e rock and roll’’. Assistiu à falência do casamento de seus pais e a tentativa deles para manter a casa em pé. Acredita nos benefícios da estrutura familiar e sabe que os filhos nunca saem ilesos de uma separação. Ao mesmo tempo não possui forças para a manutenção da relação com a esposa. A liberdade assume um valor maior.
A história de ‘‘Intimidade’’ ocorre num único dia, naquele que antecede a fuga do narrador. O romance em sua totalidade não é nada mais do que as reflexões de Jay sobre todos os acontecimentos dos últimos anos de seu casamento, sobre a dor de deixar os filhos, sobre suas constantes infidelidades, sobre a nova paixão por uma garota mais nova, sobre seus ideais e medos.
Enfim, reflexões de um homem diante de uma importante e complicada decisão, a morte de um casamento. Reflexões para que a vida ganhe a força necessária e, assim, possa realizar a ação da mudança: ‘‘Tento me convencer de que abandonar uma pessoa não é a pior coisa que se pode fazer a alguém. Talvez seja melancólico, mas não precisa ser trágico. Se a gente nunca deixa para trás nada nem ninguém, não sobra lugar para o novo. Naturalmente avançar é uma infidelidade – para com os outros, o passado, as antigas idéias que cada um faz de si. Quem sabe se cada dia não devesse conter pelo menos uma infidelidade essencial ou uma traição necessária. Seria uma atitude otimista, esperançosa, que garantiria a crença no futuro – uma declaração de que as coisas podem ser melhores, e não apenas diferentes.’’
Quando publicou seu primeiro romance, ‘‘O Buda do Subúrbio’’, em 1990, Kureishi foi aclamado como um promissor ‘‘escritor pop’’. Isso porque seus escritos continham a herança contracultural dos anos 60 e o contexto dos anos 70. Partia de Bob Dylan e ancorava em Sid Vicius. Como roteirista de cinema, seu trabalho mais conhecido é ‘‘Minha Adorável Lavanderia’’, levado às telas pelo cineasta Stephen Frears. Aos 47 anos de idade, sua obra começa a se distanciar do universo pop para entrar nos corredores existencialistas daqueles que se debatem entre as transformações culturais em prol de um mundo melhor e o comércio pop de princípios.
O final de ‘‘Intimidade’’ pode surpreender os leitores. Hanif Kureishi faz um belo jogo onde o narrador parte para criar uma nova vida e, ao mesmo tempo, recriar a antiga. Dúvidas podem surgir, mas os argumentos estão, de maneira sutil, espalhados pelo romance em posições estratégias. Vale citar um deles: ‘‘A gente comete erros, se extravia, se distrai. Se o sujeito é capaz de ver seu avançar tortuoso como uma espécie de experimento, sem que deseje uma segurança impossível – nada de interessante acontece na falta de ousadia –, chega a uma espécie de tranquilidade. Você pode, é claro, fazer experiências com sua própria vida. Mas talvez não com as vidas alheias.’’
•‘‘Intimidade’’ de Hanif Kureishi, Editora Companhias das Letras, tradução de Celso Nogueira, 120 páginas. Preço: R$ 19,50.

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