Arquivo FolhaLê-se nos ‘‘Pensamentos’’ de Pascal: ‘‘Um homem é uma substância; mas, se o anatomizarmos, será ele a cabeça, o coração, as veias, o estômago, cada veia, cada porção de veia, o sangue, cada humor do sangue?’’ Se alguém encontrasse num beco escuro o cadáver de um homem decapitado, diria, ante o tétrico achado, que encontrou o corpo de um homem sem cabeça; porém, se ocorresse o contrário - ou seja, encontrasse apenas uma cabeça -, dificilmente diria que achou uma cabeça sem homem. E isso porque o homem é um certo conjunto e constitui uma individualidade em função desse conjunto, o qual só existe, por assim dizer, a uma certa distância e sob um determinado ponto de vista. Ainda em Pascal: ‘‘Uma cidade, um campo, de longe, são uma cidade e um campo; mas, à medida que nos aproximamos, são casas, árvores, telhados, folhas, plantas, formigas, pernas de formigas, até o infinito. Tudo isso se inclui na palavra campo’’. (‘‘Pensamentos’’, II, 115, trad. de Sérgio Milliet, São Paulo, Abril Cultural, 1979, 2ª ed.).
Pois bem... pergunto agora: o que se inclui na palavra ser? A resposta aqui não é tão simples e passa, necessária e primeiramente, pela resposta à pergunta: a que nos referimos quando, apontando para o próprio peito (onde certamente ele não está), dizemos ‘‘o meu ser’’? o ser, para a maioria das pessoas, apresenta-se como quinta-essência, é ‘‘o homem dentro do homem’’, o que restaria se nos subtraíssem a cabeça, os membros, o coração, o fígado, os pulmões, as veias, o sangue, etc. - Será? Quem nos garante que isso a que chamamos o ser, além de inerente ao corpo e indissociável dele, não é uma espécie de alucinação crônica? (Se for assim, com mais razão deveríamos apontar para a nossa cabeça quando falamos do nosso ser.) De qualquer modo, é uma ilusão psicologicamente útil, pois nos faz crer que algo preexiste às circunstâncias e as transcende, e, portanto, há dentro de nós algo que é estável, ordenado e, provavelmente, sobreviverá à rescisão desse efêmero contrato com a matéria que é, afinal, a nossa existência enquanto corpo. Se é assim (embora nada de muito sólido demonstre que o seja), então a vida é tolerável e menos absurda, e quem sabe tenhamos até uma utilidade cósmica.
Porém, com toda a sinceridade possível, busquemos dentro de nós o que seria o nosso âmago, a nossa essência, aquilo que possuímos de mais nosso e de mais íntimo, e muito provavelmente não encontraremos nada - pelo menos, nada que pareça nos pertencer. Dito de outro modo: o que seria mais nosso não se parece conosco. O que temos aí é uma espécie de abismo incolor, uma região onde as palavras não penetram, o reino do silêncio e da ausência -, por isso, o último lugar em que acharíamos a nós mesmos. Afinal, o que haveria para buscar na viscosidade do indiferenciado?
Consideremos por um momento a hipótese de que o ser seja precisamente o seu oposto, o não-ser, isto é, apenas uma abstração, e, como tal, destituído de qualquer existência fora do círculo das palavras - as mesmas palavras que demandaram rios de tinta e montanhas de papel, empregados nos incontáveis livros que traduziram e consolidaram o mito do ser. Responda a si mesmo: o que você coloca sob a palavra ser? Pare um pouco e pense, enquanto eu mudo de parágrafo.
Se você conseguiu responder, dificilmente o terá feito sem recorrer a abstrações, e isso porque não há como explicar uma abstração - no caso, o ser - senão utilizando outras abstrações. O que se tece dessa maneira é uma teia de palavras, e nenhuma delas se refere a um objeto que possamos apontar. Poderá até ser uma bela teia, com belas formas e cores, a qual reterá em seus fios formas fantasmáticas, também elas muito belas, mas tudo isso será tão-somente delírio.
Ficasse demonstrado, sem sombra de dúvida, que o ser é algo real, e não apenas uma ficção criada pelo nosso pensamento, eu de bom grado deixaria de acreditar que a ontologia é um ramo da literatura.

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