A alquimia da linguagem
Uma jornada interior longa e confusa; um monólogo que combina uma inversão das meditações cartesianas com elementos de irracionalidade e que, por muitas vezes, transpassam entre o cômico e o incompreensível. Não é exagero dizer que a obra de Leminski elevou o patamar da literatura experimental no Brasil. Mas isso não foi fácil.
Iniciada em 1966, a experiência literária ambiciosa de Leminski levou nove anos para alcançar, enfim, o seu ponto final. ''O Catatau levou muito tempo para ser escrito. Acho que esse é um dos motivos pelos quais esse tipo de experiência hoje desapareceu do campo editorial'', comenta Maurício Arruda Mendonça, que em seus estudos compara os elementos presentes na obra de Leminski com os dos livros ''Grande Sertão: Veredas'', de Guimarães Rosa, e ''Finnegans Wake'', de Joyce. ''Hoje em dia você tem uma série de grandes autores medianos. Não são autores que pesquisam a alquimia da linguagem, que transformam a literatura em uma viagem insólita para dentro da cabeça'', analisa.
Mesmo contendo um estilo literário que se opõe fortemente àqueles aos que estamos acostumados, o livro de Leminski não pode ser visto como uma bagunça. ''O Catatau tende ao ininteligível pelo excesso de informação. Ele faz com que você sinta que está patinando no texto'', explica Mendonça, que diz ser possível perceber como um dos méritos da obra o de percorrer os temas com uma abordagem não convencional. ''Algumas vezes percebemos os paradoxos lógicos da obra. Na leitura sempre existem tensões: entre a verborragia e o silêncio, a beatitude e a danação, o repouso e o movimento'', explica o dramaturgo, que, folheando seu próprio exemplar - repleto de rabiscos e trechos grifados - arrisca um meio sorriso. ''É uma erudição engraçada.'' (R.C.)





