O tempo parece ser aquilo que conseguimos reter nas mãos quando dormimos. Aquilo que, no primeiro instante do despertar, se esvai pelos vãos dos dedos. Evapora como suor sob o sol. Se distancia da pele como pássaro fugindo da gaiola.
Mesmo com todo seu caráter fugidio, o tempo parece ser a distância necessária para que o ser humano saiba quem ele é, ou pelo menos pressinta em que pode se transformar. Esse é um dos argumentos centrais do novo romance do escritor Don DeLillo: ‘‘A Artista do Corpo’’. O livro, que acaba de ser publicado pela Companhia das Letras, deixa claro porque DeLillo é um dos principais nomes da literatura norte-americana contemporânea.
‘‘A Artista do Corpo’’ é um pequeno e delicado romance inundado por uma narrativa interior que procura comensurar o tempo através da linguagem. Habituado a escrever extensos romances – como ‘‘Submundo’’, de 1999 – DeLillo optou por colocar o máximo de possibilidades literárias num reduzido espaço. Conseguiu realizar um texto exato e ao mesmo tempo sem formas definidas. Uma espécie da névoa emana das páginas e envolve o leitor levando-o a uma percepção pouco habitual.
Em ‘‘A Artista do Corpo’’, Don DeLillo desenvolve uma narrativa repleta de silêncios e espaços em branco. A linguagem utilizada é componente determinante da história narrada. Ou melhor dizendo, da experiência vivida pela personagem principal, Lauren – uma artista adepta da ‘‘body art’’.
Na história apresentada por DeLillo, a maioria das ações ocorre no espaço interno de Lauren. Após o suicídio do marido, um cineasta decadente, a mulher procura metabolizar seu luto sozinha num casarão isolado numa praia deserta. Nesse período, um misterioso garoto passa a se esconder num dos inúmeros quartos da casa. Um garoto que não vive no mundo comum, mas em outro universo – e por isso mesmo começa a trazer Lauren ao encontro a si mesma.
Em ‘‘A Artista do Corpo’’, Don DeLillo – nascido em 1936, em Nova York – manda a linearidade para o espaço com um objetivo deliberado: demonstrar como a percepção do homem frente aos seus próprios sentimentos e pensamentos é vulnerável. Uma vulnerabilidade que revela como o tempo é uma coisa sobre o qual não se sabe nada.
Só o tempo diz, a nós mesmos, quem somos. Isso parece ser uma lei mais austera que a própria gravidade. E quando ele, através das palavras corporais pronuncia quem somos, estamos geralmente dormindo. Ou sonhando.
Serviço: ‘‘A Artista do Corpo’’, de Don Delillo, Editora Compahia das Letras (telefone (11-) 3846-0801), tradução de Paulo Henriques Britto, 126 páginas, R$ 19,50.




‘‘Estar vivo veio a mim. Estou com o momento, vou deixar o momento. Cadeira, mesa, parede, corredor, tudo para o momento, no momento. Veio a mim. Aqui e aí. A partir do momento eu parti, saí, estou indo. Vou partir no momento a partir do momento.’’
Ela não sabia que nome dar a isso. Chamava-o de canto. Ele continuou assim por algum tempo, indo, vindo, e era canto, ladainha. Ela achegava-se a ele. Era um nível que demonstrava não estar ele fechado para a inspiração. Ela sentia o relaxamento do corpo que a retirava da espera do pensamento laborioso, trazendo-a para algo quase incontrolável. Achegar-se à voz dele, rindo. Queria participar da ladainha dele, entrar no ritmo, ou nas palavras, ou nas coisas, o que quer que ele estivesse fazendo, mas só conseguia rir.
‘‘Vindo e indo estou partindo. Eu vou ir e vir. Ir veio a mim. Nós vamos, todos vamos, todos vão ser deixados. Porque estou aqui e onde. E vou ir ou não ou nunca. E eu vi o que vou ver. Se estou onde vou estar. Porque nada fica entre mim.’’
(Fragmento de ‘‘A Artista do Corpo’’)

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