A ALMA DAS RAÍZES MORTAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de outubro de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Unindo história e psicologia, em Espelho Índio o sociólogo e psicólogo Robert Gambini faz o mapeamento do processo de formação da alma brasileira
As estantes das bibliotecas estão repletas de estudos sobre a formação do povo brasileiro. Há centenas de obras sobre o desenvolvimento cultural da nação tendo como tripé principal as três etnias o índio, o branco e o negro. Há quilos e mais quilos de papel sobre o processo histórico que deu origem ao país chamado Brasil. Por outro lado, se alguém revirar as estantes procurando alguma informação sobre a formação da alma brasileira, não encontrará praticamente nada.
Apesar da evolução multidisciplinar da historiografia brasileira, são poucos os pesquisadores que se aventuram entrar nesse amplo território subjetivo. O sociólogo e psicólogo Roberto Gambini é um deles. Seu livro Espelho Índio, publicado pela Editora Axis Mundi, em conjunto com a Editora Terceiro Nome, é um instigante trabalho que promove a a união entre História e Psicologia.
A proposta Gambini é realizar uma abordagem em que seja possível conceber uma História do Brasil através do prisma psicológico: A busca de um fio que nos ajude a entender como se formou a alma brasileira. Quando emprego esse termo, atenho-me a seu uso comum: um âmago, uma essência que nos faz ser quem somos e sobre qual se constrói um identidade coletiva.
O autor analisa o período de colonização a partir das cartas escritas pelos primeiros padres jesuítas portugueses que desembarcaram no Brasil, especialmente José de Anchieta e Manuel da Nóbrega. O ponto principal está na reconstituição de como os jesuítas se relacionaram com os índios brasileiros. Como, na sede de conversão, literalmente assassinaram suas almas ao apagarem do mapa um universo mítico nativo que levou milhões de anos para ser construído em nível de inconsciente coletivo.
Ricamente ilustrado com iconografia de época, Espelho Índio procura compreender a complexa relação entre o jesuítas e os nativos brasileiros, dois níveis de consciência completamente distintas. Para isso faz uso da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, centrando a atenção no conceito de projeção onde o outro (os índios) funcionaria como espelho dos padres, um espelho que não foi encarado de frente. Na destruição do sistema mítico do outro, através da catequese, a cruz do cristianismo teria sido uma espada cravada no peito indígena para matar a sua alma.
Os índios, de maneira geral, receberam bem os portugueses. Isso revela que tinham uma projeção positiva com relação à figura do explorador. Os navegadores e jesuítas, por sua vez, tinham uma projeção negativa em relação aos nativos. Gambini resume esse processo com as seguintes palavras: Isso significa que um conteúdo psíquico pertencente aos índios recaiu sobre um objeto externo, percebido como idêntico ao conteúdo projetado. Esse traço, proveniente dos domínios de Eros, de receber o Outro diverso e percebê-lo como portador do novo e da salvação, é parte integrante da alma indígena, sendo tecnicamente um projeção positiva. Os marinheiros das caravelas também viveram uma percepção projetiva, só que oposta. Uma e outra se cruzaram no céu como dois pássaros em vôo contrário, e esse choque de projeções é a matriz da alma brasileira e da dolorosa destruição da alma ancestral da terra.
Nesse contexto, imagens preciosas do inconsciente coletivo protobrasileiro se perderem. Complexos e elaborados estados de alma nativa se extinguiram sentimentos, maneiras de ver, compreender e valorizar o mundo, propostas para atravessar o curso da vida com dignidade e sentido. Esse conjunto de bens do espírito caiu num fosso sem fundo, um buraco negro que a tudo tragou sem possibilidade de volta. O que nos resta são hoje os fragmentos que carregamos em nós, nessa camada profunda e aglutinadora da psique a que Jung deu o nome de inconsciente coletivo.
Não se trata apenas de levar em conta a simples da contribuição cultural dos nativos na nação brasileira, mas de uma verdadeira simbologia metafísica que acabou sendo dizimada. Pesquisas recentes afirmam que o Brasil já era habitado há cerca de 30 ou 40 milhões de anos. Isso significa que a alma indígena estava impregnada na terra, no céu, nas águas, nas plantas e nos animais. Quinhentos anos seria um tempo muito curto para tal devastação, mas foi o que aconteceu e o resultado é que hoje temos uma alma brasileira incompleta e, de certa maneira, até mesmo aleijada.
A conclusão de Gambini é simples e direta: O que se deu no Brasil foi uma mistura física e não uma comunhão de almas, porque o conquistador não reconhecia um valor mínimo nas qualidades humanas daqueles que subjulgava somos de fato um povo de raças misturadas. Misturadas biologicamente, genéticamente, mas a mistura psíquica, a fertilização mútua entre as almas, esta ainda não se deu.
Espelho Índio - A formação da alma brasileira de Roberto Gambini, Editora Axis Mundi/Terceiro Nome, 192 páginas, ilustrado, capa dura, R$ 65,00. Editora Axis Mundi, tel/fax (11) 3846-6229, e-mail [email protected] - Editora Terceiro Nome, tel/fax (11) 240-5540, e-mail [email protected]


