Depois de Hermeto Pascoal, Airto Moreira. Definitivamente, Londrina virou abrigo privilegiado para os monstros sagrados da música brasileira universal. Depois do bruxo dos sons, o mestre da percussão.
Um workshow de Airto Moreira abre hoje, às 20h30, a ''2 Mostra de Percussão'' no Teatro Marista. A programação prossegue amanhã com a apresentação dos músicos Caíto Marcondes e Lula Alencar.
Airto faz parte do seleto grupo de artistas que deixou o Brasil para se destacar no exterior protagonizando um fenômeno em que, à reputação internacional, corresponde um semi-anonimato em seu próprio país.
De currículo invejável, tocou ou gravou com Tom Jobim, Miles Davis, Chick Corea, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Stanley Clarke, Carlos Santana, Gato Barbieri, Quincy Jones e Gil Evans. Até bandas de rock/pop como Smashing Pumpkins e Depeche Mode já requisitaram seus serviços.
O impacto de seu trabalho foi tamanho que a revista Downbeat passou a considerar a categoria percussão na votação de seus leitores e críticos, na qual ele foi o vencedor absoluto por mais de 20 vezes desde 1973.
Agora, em míni-turnê pelo Brasil, ele chega a Londrina para apresentar uma mistura de workshop e show que inclui solos, bate-papo com a platéia e execução de instrumentos inusitados.
Nascido em Itaiópolis (SC), Airto mudou-se com um de idade para Ponta Grossa e depois para Curitiba e São Paulo. Em 1967, viajou para os Estados Unidos para ficar duas semanas e acabou se estabelecendo ao lado da então namorada e cantora Flora Purim, com quem vive até hoje.
Atualmente, ele é professor do Departamento de Etnomusicologia da UCLA. Como músico, continua com a agenda lotada. Recentemente, gravou um CD com o Kodo, um grupo de música percussiva típica do Japão. O projeto foi produzido Mickey Hart, baterista do Grateful Dead com quem ele mantém a banda Planet Drum Percussion Ensemble. Ainda nesta temporada, quer concluir as gravações de um novo álbum para o selo Virgin, que terá participação de sua filha, Diana Moreira. A seguir, confira entrevista com o músico.
O que você vai mostrar no workshow?
A apresentação vai durar entre uma hora e meia e duas horas. Na primeira parte, falo de minha experiência como músico e conto histórias dos artistas com quem toquei. Paralelamente, faço demonstrações com os instrumentos. Vou mostrar algumas peças estranhas que o pessoal nunca viu, como uma escultura de metal montada com molas e que batizei de ''fóssil''. Parece um tatu gigante. Você toca e ela se mexe toda. Ao final, vou fazer três solos sem parar.
Além de Londrina, você se apresentou no Rio, em São Paulo e depois vai seguir para Recife. É uma temporada que você não tinha programado ao pensar em vir para o Brasil, não é mesmo?
Na verdade, eu vinha para Curitiba onde venho todos os anos para rever os parentes e amigos. Mas aí, ao saberem de minha viagem a passeio, os fabricantes de instrumentos Zildjan e Vic Furth sugeriram as apresentações e acabaram patrocinando a viagem. Até agora, a experiência tem sido muito boa.
Quando foi a última vez que você tocou no Brasil?
Foi em 1999, no Sesc da Vila Mariana em São Paulo. Antes disso, houve um intervalo de sete anos sem tocar no Brasil.
O que o levou a se mudar para os Estados Unidos em 1967?
Foi a Flora (Purim, cantora). Na época, nós já estávamos juntos. Mas ela falava cinco línguas, queria ser cantora de jazz e decidiu tentar carreira nos Estados Unidos. Quando ela já estava lá há um mês e meio, fui visitá-la. Tinha planos de ficar umas duas semanas e trazê-la de volta. Mas acabei ficando. O resto é história.
Assim como você, os percussionistas Naná Vasconcelos e Paulinho da Costa também se mandaram há muitos anos para os Estados Unidos. Vocês já tocaram juntos?
O Paulinho mora em Los Angeles há uns 20 anos. Eu o vi duas vezes, mas ele não é muito de fazer shows. É mais um músico de estúdio. O lance dele é fazer gravações. Já, o Naná, costumo encontrá-lo com alguma frequência. Já toquei com ele em Nova York e no Royal Albert Hall, em Londres.
A entrevista continua na página 2.

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