Fugiu pela última vez na sexta passada, dia 5. Era um recordista. Desde pequeno carregou aquela irresistível vocação para a alegre vagabundagem, ele mesmo um orgulhoso SRD dotado de legítimas pretensões persas, príncipe altivo em sua densa pelagem amarelo-ouro recobrindo o corpo magnífico que chegou um dia a quase sete quilos. Não fossem dois ou três fios pretos reveladores da mestiçagem ancestral, maliciosos e atrevidos entre os bigodes imaculados, e teria conquistado uma bela linhagem aristocrata. Mas tenho certeza de que para ele isto não teria feito a menor diferença.
Yellow, o nome dele. Nascido não se sabe em que berço, desde filhotinho se integrou à família e à casa - assim mesmo, família e casa, nesta ordem precisa, para desconsolo de quem pensa o contrário, pobres desafetos sem nunca terem convivido com este ser tão nobre por natureza.
Era um boa gente, carinhoso à sua maneira, brincalhão como poucos. Castrado, nunca se acomodou languidamente à sua eunuca condição. O apelo do instinto caçador foi sempre mais forte que tudo. Transpor o muro e ganhar a rua: a glória suprema, a sensação da liberdade ilimitada, muitas vezes o prazer da fuga pela fuga, simplesmente.
Mas voltava sempre. Tinha lá suas razões, claro, comida garantida, boa sombra, água fresca, brincadeiras - esconde-esconde no escuro, a preferida, camas e sofás macios e aquecidos. E muito filhote de pomba em domicílio, dando sopa nas árvores, nos ninhos sobre os muros cobertos de floridas primaveras espinhosas que nunca foram barreira para se opor à volúpia do predador.
Requintado chef gourmet, variava o cardápio, de suculentos bem-te-vis ao desafio dos beija-flores, inexplicavelmente apetitosos em sua quase invisibilidade corpórea - pegava em pleno vôo, em acrobacias de tirar o fôlego de qualquer contorcionista chinês. Brilhante autodidata, aprendeu a calibrar paciência, técnica e fantástica destreza. E surpreendente em suas nuances, jamais recusou um generoso prato de ração.
Fugiu pela última vez na sexta passada, dia 5. Agora não volta mais, como fez sempre, todo matreiro, se esgueirando na madrugada e pelos cantos com medo da bronca, fazendo cara de paisagem como se o pito não lhe dissesse respeito. Fugiu desta vida, por conta de uma traição renal. Depois de quase nove anos da melhor e mais adorável convivência, Yellow refaz agora seus intrépidos caminhos de fuga. A ele, com respeito e gratidão, meus votos saudosos de uma doce vida na eternidade dos bichanos.

CARLOS EDUARDO LOURENÇO JORGE é jornalista e crítico de cinema

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