A alegria das cerejeiras do Japão
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Otávio Dias<br> Agência Estado 
Fukuoka, Japão - As flores de cerejeira começam a despontar dos pequenos botões. Desabrocham com força. Chegam ao auge e caem em apenas uma semana. Essa efêmera beleza é celebrada em todo o Japão, onde milhares de pessoas se reúnem sob as árvores para conversar, fazer piquenique, observar os pássaros e festejar o verão que se aproxima.
A estação da sakura - essas flores que se derramam das copas como uma cascata, tingindo-as de tons que vão do mais puro branco ao rosa intenso - dura pouco mais de um mês no arquipélago. Em geral, as flores surgem primeiro mais ao sul, onde a primavera costuma chegar antes, e nas semanas seguintes passam a colorir o centro e o norte do país.
Altitude e clima também influenciam. Regiões mais baixas e mais quentes saem na frente, áreas montanhosas e mais frias ficam para o fim da florada. Com tantas variáveis, o principal desafio para quem planeja fazer uma viagem ao Japão em busca das sakuras é estar na hora e no lugar certos. E isso muda a cada ano.
Em 2008, quando decidi realizar essa aventura única, as autoridades meteorológicas declararam o início oficial da estação da sakura no dia 18 de março, em Tóquio, onde foram registradas as primeiras floradas. A cada ano ocorrem variações, por isso todos ficam de olho, tentando adivinhar onde e quando o fenômeno terá início.
Havia programado minha chegada ao país para 20 de março, em Fukuoka, capital de Kyushu, imaginando que, por ser mais ao sul (apenas Okinawa fica abaixo), a ilha veria as flores primeiro. Ao saber que as sakuras já podiam ser admiradas na capital do país, bem mais ao norte, no centro de Honshu, confesso que temi ter errado todo o trajeto. Afortunadamente, essas previsões trágicas não se confirmaram.
Ainda fazia frio em Fukuoka, cidade de médio porte sem maiores atrativos, mas interessante como ponto de partida. Ansioso, vasculhei em vão as árvores dos parques e dos templos em busca de qualquer leve sinal de botões cor-de-rosa.
No dia seguinte, a busca se estendeu para Nagasaki, que historicamente serviu de elo entre o Japão e o Ocidente (e até se parece com São Francisco, nos EUA). Chovia bastante, ventava e nem sinal da flor. Para ocupar o tempo, uma visita ao Museu da Bomba Atômica e ao epicentro da explosão nuclear que atingiu a cidade em 9 de agosto de 1945, matando quase 75 mil pessoas imediatamente.
Promessas
Em Kumamoto, onde fica um dos castelos medievais mais imponentes do país (embora reconstruído em concreto), surgiram as primeiras pontinhas de pétalas cor-de-rosa. Mas eram meras promessas de flor.
Resolvi praticar meu lado zen. E nada melhor para acabar com a ansiedade que relaxar em um dos inúmeros rotemburos de Yufuin, vila turística situada nas montanhas e conhecida pelas piscinas fumegantes ao ar livre, alimentadas por fontes naturais de origem vulcânica. O inverno ainda estava bem presente por lá.
Na falta da sakura, aproveitar a culinária local e fazer a digestão caminhando pelas estreitas trilhas que cortam os campos se revelaram ótimas alternativas. Assim como dedicar algum tempo para conhecer a arquitetura das casas de fazenda.
Chegou a hora de atravessar o mar em direção a Matsuyama, na Ilha de Shikoku. O trajeto foi feito em um barco - em que não se reserva uma cadeira, mas um tatame, o que permite fazer a viagem de algumas horas confortavelmente deitado. Continuava frio e a hospedagem escolhida foi num ryokan, um dos tradicionais hotéis japoneses, a poucos passos de Dogo Onsen, o banho público mais antigo do Japão. Submergir na piscina de granito em funcionamento há mais de 3 mil anos e depois tomar chá verde no salão forrado de tatames é um ritual altamente recomendável.
Enfim
O dia 28 de março amanheceu ensolarado, promessa de boas notícias. O destino escolhido foi o Castelo de Matsuyama, bem preservada construção de madeira no alto de uma colina, no centro da cidade. No caminho do teleférico para o portão principal, lá estava ela: a primeira sakura carregada de grandes bolas cor-de-rosa.
A árvore chamava a atenção de todos. As pessoas paravam para admirar com atenção, comentar, tirar fotos. Aliviado e feliz, cheguei perto e me surpreendi com a quantidade de pássaros nas flores.
Mais acima, uma fileira de árvores de um rosa ainda mais intenso se destacava diante da muralha de pedra. Com o espírito tomado pela beleza das sakuras, visitei o castelo medieval sem reclamar das inúmeras escadas de madeira para lá de íngremes. Sete dias após o desembarque na terra do sol nascente, a tão esperada estação da sakura havia finalmente começado para mim.


