A ALEGRE DOR DA MORTE
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de outubro de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
A vida nos ensina que toda vez que perdemos alguma coisa uma tristeza nasce em nosso coração. Mas, no fundo, como uma semente de alegria, acalentamos o desejo de um dia voltar a encontrá-la. E, se procurarmos com afinco, podemos achá-la no lugar menos provável, ou no esconderijo mais óbvio.
A vida também nos ensina que nem tudo que perdemos pode um ser reencontrado. Se por uma lado existe a possibilidade de encontrarmos uma agulha num palheiro, por outro é impossível encontrar as pessoas que perdemos para sempre.
A morte é um sentimento de perda que todo mundo já vivenciou ou um dia vivenciará. Mesmo sendo um sentimento inseparável da vida, é um assunto evitado pela grande maioria das pessoas. Seguindo essa tendência, são poucas as obras da literatura infantil e infanto-juvenil que encaram de frente esse tema com a naturalidade que ele exige.
Os Amigos, romance infanto-juvenil que acaba de ser lançado pela Editora Martins Fontes, é uma dessas raras obras. De autoria da escritora japonesa Kazumi Yumoto, conta a história de amizade entre três garotos de doze anos de idade, o magrelo Kiyama, o gorducho Yamashita, e o quatro-olho Kawabe.
Um belo dia, após constatarem que não sabem nada sobre a morte, resolvem empreender uma aventura secreta: conhecer a morte. Para isso acreditam que precisam apenas observar os últimos instante de vida de qualquer pessoa. Nada de morbidez, apenas uma experiência de cunho quase científico.
O alvo escolhido é um velhinho solitário que mora sozinho nas proximidades da escola, um idoso que passa os dias deitado assistindo televisão esperando a morte chegar. Todos os dias, após a aula, Kiyama, Yamashita e Kawabe, se reúnem para espionar o velho através do muro de sua casa.
Acontece que o velho se revela duro na queda e a espionagem se prolonga por semanas. Lentamente os garotos passa a gostar daquele que observam e o velhinho passa a se simpatizar com seus observadores. Uma calorosa amizade tem início nessa relação e uma curiosa inversão ocorre. Em contato com os garotos, o velhinho passa buscar a vida, do outro lado, o trio deixa de procurar a morte no idoso para encontrar a sua vida.
Assim, o velho e sua casa tornam-se um seguro refúgio para os problemas familiares e as dificuldades pessoais de cada menino. Assim, cada menino torna-se um refúgio acolhedor para as dores e os dramas existenciais do velho.
Em Amigos, Kazumi Yumoto contrapõe a infância e a velhice para revelar, com extrema beleza, a relação entre vida e morte. Uma disposição ideal onde a infância se nutre da velhice e a velhice se nutre da infância, numa troca em que os dois pólos evoluem com o aprendizado.
Narrado a partir da voz de um dos garotos, Kiyama, o romance, que já foi transformado em filme, é de uma simplicidade elegante e abrangente. Ao tratar da morte, não oferece nenhuma explicação adulta para o fato. Na verdade realiza uma afirmação da vida, deixando claro que toda pessoa que viveu de maneira plena, morre com um sorriso no lábios. Num sentido mais profundo, uma espécie de dor alegre.
Ao final da aventura, ao conhecerem a morte, Kiyama, Yamashita, e Kawabe dão o primeiro passo em direção ao mundo adulto.
Os Amigos de Kazumi Yomoto, Editora Martins Fontes, tradução de Shirlei Lica Ichisato Hashimoto, 226 páginas, R$ 22,50. Editora Martins Fontes - home page http:/www.martinsfontes.com - telefone (11)239-3677.


