Rio - Pegue a viola e junte ao pandeiro. A prosa rural virou samba e dos bons, garantem os mais entendidos. O homem que planta, cuida e colhe o que vai para a mesa dos brasileiros será homenageado este ano pela escola carioca Unidos de Vila Isabel. "A Vila canta o Brasil celeiro do mundo – água no feijão que chegou mais um..." é o enredo que cairá na Sapucaí, abordando a importância da agricultura brasileira.
No barracão da escola, na Cidade do Samba, no Rio de Janeiro, os preparativos já estão na fase final. Cerca de 300 pessoas trabalham horas por dia para colocar em pé as alegorias que prometem emocionar o público, assim como o samba. A turma acorda cedo, igualzinho ao agricultor, para costurar, bordar, pregar, martelar, colar plumas e paetês em fantasias de quase 4 mil integrantes. É um trabalho minucioso, de amor e de alegria, parecido com a lida no campo: diária e constante.
O presidente da Vila Isabel, o jovem Wilson da Silva Alves, de 28 anos, conta que organizar toda essa festa para colocar a escola na Avenida no Carnaval leva cerca de oito meses, começando pela escolha do enredo. E com cada detalhe um cuidado especial. "Só apresentamos nosso espetáculo uma vez por ano, nada pode dar errado", enfatiza. E tal qual o agricultor, que dependendo do que planta tem colheita só uma vez no ano mas vai para o campo diariamente cuidar da lavoura, durante todo o período de preparação para o desfile o trabalho no barracão é intenso e fica mais acentuado nos últimos três meses.
Tudo para mostrar como é a lida do homem do campo, como se dá a produção agrícola, um setor tão importante para a economia do País assim como para o dia a dia das pessoas. É do campo que saem comida e roupa, plástico, papel e borracha e tantas outras coisas de que precisam as pessoas para sobreviver, quer mostrar a Vila Isabel. A ideia do enredo, conta Alves, surgiu do encontro da escola com representantes da Basf, multinacional com atuação também no setor de agronegócio, que dentro de um projeto de comunicação quer aproveitar um evento com a abrangência do Carnaval do Rio para conscientizar a sociedade sobre a importância da agricultura e do papel do produtor.
"A ideia de homenagear o agricultor nos seduziu", confessa o presidente da Vila. Daí em diante, o trabalho foi de entrar nesse mundo e buscar elementos para transformá-lo em samba. "Eu era um ‘urbanóide’ até ter contato com esse universo rural", admite Alves, lembrando que a ideia da Vila é quebrar alguns mitos que envolvem o trabalho rural e mostrar as alegrias e as mazelas do povo do campo.
"Esse grupo tem uma linguagem própria, uma culinária particular, a religiosidade tão inerente, ainda que seja um ‘Homem’ muito moderno", revela Alex Varela, historiador da Vila Isabel. Junto com a carnavalesca Rosa Magalhães, construiu um enredo que vai levar para a avenida a quadrilha, o espantalho, um pouco de grão, criação de vacas e galinhas, lavouras e bênçãos. Entre os destaques, um carro alegórico que apresenta o algodão e sua transformação na indústria têxtil e outro carregado de girassóis.
Resumidamente, a Vila vai contar como funciona um dia no campo, do nascer ao pôr do sol, com o galo cantando, o trabalho diário, a sesta até a noite com a reunião entre amigos para uma roda de viola. E não vai deixar passar em branco a colaboração de imigrantes para os campos brasileiros. "Carnaval é história, tradição, folclore, arte e cultura", resume Rosa.
Em busca do título do Carnaval deste ano, além das alegorias toda a Vila aposta na força do samba, eleito pelos críticos como o melhor deste ano, e na evolução dos componentes – a maioria da própria comunidade. Composto por Martinho da Vila e Arlindo Cruz, o samba nasceu com grife e "é pra lá de bom".
Antes de o dia raiar, lá por volta das três da manhã do dia 12, a Vila entra na Sapucaí. Leva 3,8 mil componentes, 31 alas e sete carros alegóricos. Lá na avenida promete festa no arraiá, bolo de fubá, procissão e cantoria. O povo do samba avisa que a emoção vai florescer e a Vila vai "plantar felicidade no amanhecer".

* A jornalista viajou para o Rio de Janeiro a convite da Basf

Leia também:

- Por um planeta menos faminto

mockup