A afirmação de um conceito cultural
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de fevereiro de 2001
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha2 
Antropofagia: 1 prática do consumo de carne humana de caráter ritual. 2 conceito cultural criado por Oswald de Andrade, em 1928, que pregava a assimilação das tendências modernas do pensamento europeu e da arte de vanguarda em relação ao elementos nativos e primitivos brasileiros.
Se o conceito de antropofagia ocupa tanto a discussão sobre cultura nacional é porque ele não só se aplica tão bem à nossa realidade social miscigenada e nova, em relação à Europa, como também coloca uma questão original frente à dependência crônica de nossos dirigentes em copiar modelos importados, pensando com isto trazer a modernidade ao país. É ridículo, mas, às vezes, é preciso vir alguém de fora para nos mostrar o óbvio. Em recente entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, o líder camponês francês, José Bové, deixou claro, diante de jornalistas porta-vozes do governo e representantes do latifúndio que, enquanto o governo brasileiro defende os interesses de empresas multinacionais, na Europa essas mesmas empresas estão perdendo espaço de atuação, justamente pela prática nociva de seus métodos econômicos, sociais e ambientais.
Na semana anterior ao ativista Bové, esteve no Roda Viva o filósofo Edgar Morin, outro francês, dizendo que nosso país é maravilhoso e hospitaleiro, mas que o povo precisa ser mais confiante em si, pois espera sempre uma aprovação da Europa e dos Estados Unidos para reconhecer a virtude das coisas, idéias e talentos nativos. Precisava que alguém de fora nos dissesse isso? Que nossos índios fossem exterminados, que nosso povo fosse destituído da terra e jogado na periferia das grandes cidades para que alguém viesse de fora e dizer que isto está errado? Quantos talentos, quantos artistas, quantos seres humanos, quanta cultura não tem sido sacrificada sem que ninguém as perceba, encurraladas pela injustiça, pela cegueira da elite econômica, que assim deixa a insegurança se espalhar no meio de nossa gente?
Talentos como o compositor Tom Jobim ou o artista plástico Cildo Meirelles poderiam frutificar em nossa terra aos montes. Para Tom Zé, com Jobim, o Brasil mostrou que era possível deixar de vender matéria-prima para o estrangeiro e passar a exportar o mais elevado produto do espírito humano, a arte. Meirelles é hoje um artista reconhecido internacionalmente. O alcance de sua obra é uma influência à nova geração de artistas e criadores de diversos países. Seu trabalho une o discurso político, sem deixar de lado o sensorial (cheiros, texturas, temperaturas, imaginação, etc.) e a sedução do objeto artístico. Para ele, a noção de antropofagia é uma contribuição positiva que a cultura brasileira pode fazer à possibilidade de coexistir na diferença.
Oswald de Andrade afirmava que sem nós, a Europa não teria feito sequer sua pobre Declaração dos Direitos Humanos. Possuíamos e ainda possuímos uma riqueza humana e natural capaz de encantar a imaginação e a cobiça de outros países, mas precisamos mostrar que somos capazes de valorizá-las, para não continuarmos participando da chamada globalização apenas como alimento dos canibais. Aliás, diferente da antropofagia, o canibalismo é a prática de devoração da carne humana sem nenhum ritual.
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