90 anos no mar de Caymmi
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de maio de 2004
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
A voz dá sinais de lassidão. A ternura, não!
Como vai a cidade de Londrina?
Vai bem...E a Bahia continua viva ainda lá?
Moro há muito tempo no Rio de Janeiro mas sei que a Bahia ainda está viva, sim senhor! Com a graça de Deus!
Acontece que ele é baiano. O mais notável e sábio de todos. Do outro lado do telefone, Dorival Caymmi não esconde a emoção e a surpresa de ser um homem que chegou aos 90 anos de idade, completados na última sexta-feira. Em vez de fórmulas, oferece palavras que podem explicar tamanha longevidade: ''Já me perguntei como é que consegui chegar a essa idade, que elemento é esse que me conduziu a tal nível. Acabei me conformando e pronto''.
O doce Dorival Caymmi quer chegar aos 100 anos de idade. Vai chegar porque insiste em ser um homem feliz. ''Sei que atualmente tenho algumas incapacidades de sentido, mas sei também que a vida sempre foi generosa comigo. Minha base sempre foi a felicidade. Nunca dei margens ao pessimismo e aos pensamentos amargos, daí...'', diz ele com incontido sorriso.
O homem velho é avesso a reverências maiores. Deixa que pensem, que digam e que falem dos seus 60 anos de carreira em que produziu pouco mais de cem canções. Poucas, mas todas consistentes, bem-feitinhas, de dar gosto. Dizem que levou anos para compor alguns versos, ''Maracangalha'' por exemplo. Contam que sempre cultivou a famosa preguiça baiana ainda bem porque o desleixo nunca foi característica de seu cancioneiro.
A humanidade é maior que seu mito. ''Papai já cantou para reis, príncipes, presidentes do mundo inteiro e nunca gostou do poder e de seus favorecimentos'', atesta o filho Dori Caymmi. ''Não consigo separar o artista do homem...Ainda me lembro de quando eu o ouvia cantar suas canções praieiras no rádio. Por isso é que até hoje eu o olho com um senhor que tem o poder do mar'', complementa Dori. Bonito isso!
Quantas vezes Dorival não se embeveceu ao ver o mar quebrando na praia! Soube como ninguém ver além do sargaço e sal trouxe à tona os mistérios das águas de Iemanjá, a lida dos pescadores, o cheiro da maresia, o vento que embaraça as folhas no alto do coqueiral, a possível doçura de se morrer no mar... ''O mar me ensinou a cultivar paixão, tranquilidade e poesia'', diz ele.
Dorival esquiva-se de rótulos e de adjetivos maiores, mesmo que sejam essencialmente necessários para defini-lo. Gilberto Gil o definiu como Buda Nagô. Desse título, ele gostou. Não de hoje o consideram o grande patriarca da música baiana não disse nem sim, nem não; talvez no fundo goste. Já foi cantando em verso e prosa, deu margens a resenhas literárias, recebeu menções honrosas, emprestou nome à praça a tudo ele agradece, porém não se envaidece muito. ''Para quê, não é?'', pergunta.
O mestre baiano o título simples talvez o comova mais profundamente diz ter uma certa noção de sua importância no contexto cultural brasileiro. No entanto, admite apenas que sua obra seja objeto de curiosidade para gerações futuras eis o motivo de sinalizar positivamente a ''O Tempo e o Mar'', biografia escrita por sua neta Stella e lançada em 2001. ''De vez em quando examino arquivos e agendas e acabo admitindo que fiz, modestia à parte, uma carreira boa'', informa.
Há muito tempo Dorival deixou de gravar e apresentar-se em público. Deu-se por satisfeito com o que tinha feito e muito bem-feito e recolheu-se. Assim, sem maiores despedidas. ''Ninguém mais o chama para cantar porque sabe que papai leva a sério esse negócio de aposentadoria'', brinca a filha Nana Caymmi.
Foi dela a idéia de um disco comemorativo aos 90 anos do pai em que junta as vozes com os irmãos Dori e Danilo. No repertório, só sambas. ''É como se fosse uma grande festa no quintal da minha família para aquele a quem considero o maior sambista do Brasil'', diz ela.
O tributo fez o velho Caymmi chorar. Logo ele que, apesar de toda a leveza de alma, não é dado a comoções. ''Não sou de fingimento e nem sou homem de chorar, mas tenho que lhe confessar: as lágrimas me vieram. Fiquei encantando com o que Nana Dori e Danilo fizeram com meu repertório'', informa. Mas ao mesmo tempo em que confessa essa ''fraqueza'', ele se restabelece e diz quem até hoje melhor interpretou suas canções. ''Eu mesmo'', diverte-se. Mais uma vez ele tem razão.
Dorival Caymmi tem agora exatos 90 anos. É um senhor de respeito. Um senhor que todas as noites, ao deitar-se, cumpre um ritual digno das pessoas grandes. ''Só consigo dormir depois de passar o meu dia a limpo para acordar, no dia seguinte, com a mente renovada'', informa. Dorival Caymmi é ou não um doce de pessoa?!


