O longa ''Limite'', de Mário Peixoto (1908-1992), costuma encabeçar as listas periódicas de melhores filmes brasileiros de todos os tempos. O curioso é que, durante duas ou três décadas, a obra permaneceu relegada ao ostracismo lembrada apenas pontualmente em artigos de um ou outro crítico menos distraído.
Quando exibido, o filme restringia-se ao circuito de cineclubes do Rio de Janeiro ou São Paulo. Se gerações não puderam assisti-lo, o público da 9 Mostra Londrina de Cinema terá a oportunidade de apreciá-lo hoje, às 14h30, dentro do Ciclo Olhar Radical, no Cine Com-Tour/UEL. A ação de ''Limite'' se passa num barco. Nele, perdidos no mar, estão um homem e duas mulheres, que abatidos deixam de remar e parecem conformados com seu destino.
Cada um conta, por meio de flashbacks, sua história, misturando tristeza, angústia, desespero, opressão, monotonia e fuga. ''É o filme mais radical já feito no País em termos de cinema de poesia. Peixoto dizia que o rodou para provar que o tempo não existe'', salienta Rodrigo Grota, um dos coordenadores da mostra.
A gestação da obra-prima teria ocorrido durante uma viagem do jovem realizador à França, onde viu uma capa da revista francesa de cinema Vu, que estampava uma mulher olhando de frente para fora do quadro com duas mãos masculinas algemadas em primeiro plano. O impacto da imagem, presente em seu próprio filme, desencadeou a vontade - aos 21 anos - de se lançar no universo das imagens em movimento.
Lá mesmo, num quarto de hotel, escreveu o primeiro rascunho do argumento. Peixoto, no entanto, não queria dirigir ''Limite''. Mas apenas atuar nele. Ofereceu a direção respectivamente para Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro, que recusaram a proposta alegando tratar-se um trabalho auroral e que caberia a ele tomar a frente de sua obra.
O longa estreou no dia 17 de maio de 1931 no Cinema Capitólio, na Cinelândia, no Rio de Janeiro, em sessão promovida pelo Chaplin Club, primeiro cineclube do País. De acordo com o livro ''Limite'', de Saulo Pereira de Mello, a ''reação tépida do público'' teria sido acompanhada da recepção ''morna da crítica, fria dos realizadores e gelada dos distribuidores''.
Posteriormente, a incompreensão inicial foi substituída por um culto reverencial que perdura até hoje. Em 1959, teve início o trabalho de restauração do filme, que foi relançado em 1978. Em 2007, a obra-prima de Peixoto voltou a ser comentada com a apresentação de uma versão restaurada digital no Festival de Cannes.
Também neste ano, foi selecionada para a World Cinema Foundation, fundada pelo cineasta norte-americano Martin Scorcese e que tem como objetivo a preservação, restauração e exibição de produções históricas, sobretudo da África, América Latina, Ásia e Europa Central. Como se fosse pouco, ainda foi o único título brasileiro escolhido pelo astro do rock inglê David Bowie para compor o rol de 10 longas da América Latina para a mostra High Line Festival.
Incatalogável em escolas, ''Limite'' é um filme único no quadro da cinematografia nacional. Assisti-lo pode ser uma experiência implacável.

mockup