80 anos em busca de um Brasil
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2002
Rodrigo Souza Grota Reportagem Local 
Cena 1 - Todas as artes são regidas por princípios imutáveis, leis fundamentais que não dependem do tempo nem da latitude. Enquanto a percepção sensorial se fizer normalmente no homem, através da porta comum dos cinco sentidos, um artista diante de um gato não poderá sentir senão um gato. - Monteiro Lobato
Cena 2 - Belo da arte: arbitrário convencional, transitório - questão de moda. Belo da natureza: imutável, objetivo, natural - tem a eternidade que a natureza tiver. Arte não consegue reproduzir natureza, nem este é seu fim. O belo artístico será tanto mais artístico, tanto mais subjetivo quanto mais se afastar do belo natural. - Mário de Andrade
As duas cenas acima, extremamente opostas, estavam presentes em um fevereiro literalmente abalado após uma exposição de arte, a famosa e ainda polêmica Semana de 22. Se por um lado, o Brasil se encaminhava para uma consolidação industrial, iniciando o processo que transformou os centros urbanos em pólos centralizadores de nossa economia, nossa elite social (barões do café, no caso de São Paulo) ainda estava resignada a preceitos considerados conservadores por uma geração que surgia.
Esse nova geração de intelectuais estava ansiosa por uma arte nova, que pudesse seguir seus passos sem o entrave da realidade e o conformismo de movimentos anteriores, meras extensões da arte européia, como o barroco, neoclassicismo ou classicismo, romantismo, realismo, naturalismo e parnasianismo. Entre esses novos estetas estavam muitos dos principais artistas brasileiros do século 20: os escritores Mário de Andrade, Ronald de Carvalho e Menotti del Picchia, os pintores Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Vicente do Rego Montero, Osvaldo Goeldi, John Graz, Zina Aita, Inácio da Costa Ferreira, João Fernando de Almeida Prado, Antonio Paim Vieira e Alberto Martins Ribeiro; os escultores Vítor Brecheret, Wilhelm Haerberg e Hildegardo Leão Veloso; os arquitetos Antoni Garcia Moya e Georg Przyrembel; os músicos Villa-Lobos, Guiomar Novais, Ernani Braga, Frutuoso Viana, Paulina dAmbrosio, Lucília Villa-Lobos, Alfredo Corazza, Pedro Vieira, Antão Soares, Orlando Frederico, além da dançarina Yvonne Daumerie.
Nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 22, exibiu-se em São Paulo, no Teatro Municipal, o que foi denominado a prova, o verso, a música e a dança de vanguarda. Um dos discursos centrais, o de Menotti del Picchia, pregava a liberdade de criação, o individualismo estético, a repulsa às escolas (inclusive a futurista), e exaltava a busca de uma arte genuinamente brasileira, filha do céu e da terra, do homem e do mistério, fruto do temperamento de cada escritor ou artista.
Essa busca pela identidade brasileira, em uma arte desvencilhada das influências de outras culturas, permeou toda a obra desses artistas que se revelaram nos efervescentes anos 20. Não aceitavam mais a trindade étnica (português, índio e o negro) como exclusiva na formação do homem brasileiro; decretaram o fim da rima, da métrica e de todos os moldes e formas antes aceitos; e combateram o regionalismo, pois queriam ser universais. Se conseguiram se manter fiéis a essas propostas, descobrindo algo que unifique todos os habitantes do Oiapoque ao Chuí, resta ao público brasileiro de arte responder: fomos bem representados ou não?


