52 BIENAL DE VENEZA - Pensar com os sentidos, sentir com a MENTE
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de setembro de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Vista sob todos os ângulos possíveis (e acreditem, há um bom número deles também impossíveis), a mega-mostra veneziana não aparenta os mais de 110 anos de história e de vida. Plena de vitalidade, didatismo, ecletismo, ela é conflitante, clara e obscura a um só tempo, jovem e bizarra, bem e
mal-humorada, irrequieta, atrevida e por isto vanguardista em seu vasto leque de artistas consagrados e emergentes. Sem esquecer, claro, a fatura do descarte, puro e simples.
Afinal, são mais de 100 artistas com obras de todos os formatos, concentrados nos 77 pavilhões nacionais em Giardini (a sede principal) e no Arsenale, e espalhados pelo centro histórico de Veneza, em palácios, igrejas e em várias ilhas da laguna. Inaugurada em junho e prevista para encerrar no 21 de novembro, até esta semana a 52 Bienal de Veneza tinha contabilizado o recorde de 170 mil visitantes, que aproveitam esta exuberante oferta de arte que a cidade prepara a cada dois anos.
As temáticas que predominam nesta edição falam de conflitos de nosso tempo, das pessoas em contato direto ou indireto com atrocidades diversas e com as permitidas saídas de emergência para sobreviver, seja a que custo for. Há muito significado sócio-político (a arte como transfigurada imitação da vida) neste gigantesco painel multi-formatado pela permissividade engenhosa, inspirada pela contemporaneidade.
Com absoluta certeza, o espectador recebe um bombardeio de informações sensoriais e intelectivas. E a proposta do curador Robert Storr foi exatamente, na origem do projeto, a de fazer o público trabalhar esta arte do presente de maneira não apenas interativa, mas a emoção fazendo as vezes da razão e vice-versa. A experiência, apesar de extenuante, é pura adrenalina.
Há pinturas, esculturas, instalações e sobretudo imagens. Além de fotografias, a arte do cinema e a interferência televisiva têm forte presença através da reprodução convencional e digital. O vídeo, o curta-metragem, o documentário encontram amplo espaço e são expressões constantes. Há animação, boa quantidade de 3D. E mais alguma coisa do resto, que somente o olho de quem vê pode ousar uma catalogação na fonte.
A arte conjugada ao presente, de meu ponto de vista muito particular, é a que oferece o lado utilidade pública que, acredito, toda manifestação artística deve conter em quantidade considerável. Não se trata de solucionar mazelas ou implodir desumanidades, mas impor ao passante que se obrigou ao evento um brado de alerta, um apelo à solidariedade.
Assim, as recentes ditaduras latino-americanas e suas consequências aparecem em trabalhos como ''Nunca Mais'', do argentino León Ferrari. Inúmeras obras são referência aos ataques terroristas de 11 de setembro e aos horrores que os EUA mantêm na prisão cubana de Guantânamo. Conflitos do Iraque, Afeganistão, Oriente Médio e ex-Iugoslávia receberam atenção cuidadosa de muitos artistas. A situação dos imigrantes ilegais em busca de asilo está nas fotos da australiana Rosemary Laing e na história em quadrinhos assinada por Eyoum Ngamgué, de Camarões, e Faustin Titi, da Costa do Marfim.
Andando pelo espaço sem fim do Arsenale, ouvi espectadores se referindo à ''muita violência'', ou ''muita política''. Certo é que este espaço, onde em outros tempos Veneza construía seus navios de guerra, jamais viu tantas armas e artefatos como tanques e aviões de combate, imagens de soldados mortos e de edifícios destruídos. Entre eles um prédio arrasado na Sérvia, diante do qual um garoto joga futebol com uma caveira como bola, em impressionante vídeo do italiano Paolo Canevari.
Nem tudo é violência, porém. Entre os respiros poéticos, o público pode refugiar-se nas cabines onde são exibidos os vídeos da série ''Sete Intelectuais no Bosque de Bambu'', do chinês Yang Fudong, sensível, lírica meditação sobre outra espécie de conflitos, aqueles mais íntimos. Outro, entre muitos destinos recomendados, é o pavilhão africano, com boa amostragem da arte que se faz no continente e este ano, o Leão de Ouro pela carreira foi atribuído ao fotógrafo Malick Sidibé, de quem se exibe a série ''A África Canta Contra a Aids''.
No pavilhão do Brasil, nos jardins da Bienal, estão obras de José Damasceno, Ângela Detanico e Rafael Lain. Mas quem rouba a cena brasileira é uma experiência forte chamada Projeto Morrinho: ao ar livre, uma réplica miniaturizada da favela carioca do Pereirão. O impacto sobre os visitantes é irresistível.
A convite do curador Storr, o criador do projeto iniciado como brincadeira, o favelado Nelcilan de Oliveira, mais o irmão Maycon e outros dez garotos passaram quase um mês em Veneza montando o universo da favela estilizada onde há de tudo: escola, creche, farmácia, lanchonete, campo de futebol, casas, motel, quadra de baile funk, bocas de fumo, postes, vielas, biroscas e até um batalhão da PM. Sucesso absoluto.


