Ranulfo Pedreiro
De Londrina
As celebrações dos 500 anos do Descobrimento têm esbarrado no apelo fácil do simples festejo, esquivando-se de reflexões. O que há realmente para comemorar? Para responder à pergunta, alunos e um professor da Universidade Estadual de Londrina – UEL – se associaram a membros da comunidade para realizar o show ‘‘O Canto Nosso de Cada Dia’’.
A resposta foi perseguida na música popular brasileira. Dirigido por Mário Loureiro, docente do curso de Música da UEL, o grupo pesquisou cerca de 200 canções que refletem, de uma forma ou de outra, a realidade nacional. Após uma seleção, a rapaziada chegou a um repertório com 16 músicas que serão apresentadas hoje, a partir das 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde, em Londrina.
O trabalho faz parte da Criação Musical, um ramo do projeto Concertos Matinais do departamento de Arte da UEL, e aglutinou 12 músicos. A análise da sociedade brasileira, dentro do contexto de 500 anos do Descobrimento, foi dividida em quatro temas: a terra, o trabalho, o poder e o excluído.
Entre os compositores selecionados para o show estão Elomar, Edu Lobo, Chico Buarque, Fátima Guedes e Noel Rosa. A realização exigiu um trabalho concentrado de equipe: o grupo preparou a releitura de cada música, trabalhando desde a formação do conjunto até os arranjos vocais e iluminação.
A experiência reuniu gente de realidades diferentes: alunos do primeiro ano do curso de música aprendem lado a lado com o pessoal do quarto ano, enquanto músicos da comunidade participam de um projeto que tem como característica a extensão das atividades universitárias. Ou seja, o grupo reúne desde veteranos do palco e da noite a pessoas que nunca trabalharam em conjunto.
‘‘Vamos ver o que a música popular cantou. São composições que apontam problemas mas que também trazem esperança’’, comenta Mário Loureiro, que no show vai tocar piano, violão e metalofone. O panorama composto pelo repertório traz os dramas rurais da seca e da posse de terra, passa pela resistência à ditadura, observa a colonização portuguesa, ressalta o caboclo, o sambista pobre, o trabalhador, a fome, a urbanização, a desonestidade, os sonhos e os demais problemas de uma sociedade que busca, aos trancos e barrancos, seu próprio caminho.
‘‘Nós fizemos todo um trabalho de arranjo, de parte técnica, vocal e interpretação. Tudo isso está ligado ao que aprendemos no curso’’, comenta a estudante Daniele Montuleze, cantora responsável pela preparação vocal do conjunto.
‘‘O Canto Nosso de Cada Dia’’ é uma consequência quase direta de ‘‘As Origens do Samba e da Bossa Nova’’, o primeiro trabalho do grupo, que vem sendo apresentado desde o início do ano como uma palestra ilustrada – e que também propõe uma análise social por intermédio da música brasileira.
‘‘Tivemos um retorno muito bom, nos apresentamos em salas pequenas mas tivemos um público numeroso’’, explica o músico Marcelo Camargo – violão e voz. ‘‘As pessoas se envolvem, já vi gente sair chorando’’, completa André Siqueira, responsável por vários instrumentos, inclusive violão, viola, bandolim e contrabaixo.
A formação do grupo inclui ainda Alex Correa nos vocais, André Vercelino na percussão, Cássio do Prado Correa na voz, Luciano Galbatiatti na bateria, Inayara Valéria Gonzalez na voz, João Miguel Aiub – voz e trombone – e Leise Ruth Lima e Tatiane Mota Santos nos vocais.
‘‘O que estamos tentando mostrar no show é que este momento de 500 anos deve ser de introspecção, devemos olhar para nós mesmos’’, avisa Loureiro. O espetáculo já foi apresentado duas vezes, em ambientes menores, e amadureceu com o passar do tempo. ‘‘Nós esperamos que o espetáculo encontre sua própria forma. Temos solistas, cantores, instrumentistas que estão buscando uma forma de dizer tudo isso’’, afirma.
O grupo ressalta que não se trata de um mero cover de canções importantes: ‘‘Se fôssemos apenas copiar o que já existe estaríamos fugindo de nosso propósito’’, ressalta Daniele Montuleze. Para Mário Loureiro, a interpretação se define com a participação de todos: ‘‘Cada um imprime um pouquinho de si, tem os arranjos de grupo e individuais, com aplicação de técnicas de construção’’. Há, ainda, uma preocupação com a produção do show. A iluminação ficou a cargo de Márcio Coltri, que também é músico e levou a experiência do palco para as lâmpadas. O título ‘‘O Canto Nosso de Cada Dia’’ foi extraído de um poema de Cacá Francovig que será lido durante a apresentação.
O Canto Nosso de Cada Dia – Apresentação do Grupo de Alunos de Licenciatura em Música da UEL, com participação de músicos da comunidade. Hoje, às 20h30 no Cine Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85, em Londrina). Os ingressos antecipados custam R$ 4,00. Na hora do show passará para R$ 8,00. Os convites podem ser adquiridos na Zona do Aroma (Higienópolis, 602, loja 15), Armazém do Músico (Rua Pernambuco, 241) e Gesto Sonoro (Rua Deputado F. Ferrari, 245).

Repertório
Credo – Milton Nascimento/Fernando Brant
Funeral de um Lavrador – Chico Buarque/João Cabral de Mello Neto
Pinhão da Amarração – Elomar Figueira Melo
Fado Tropical – Chico Buarque/Ruy Guerra
Cálice – Gilberto Gil/Chico Buarque
Upa Neguinho – Edu Lobo/Gianfrancesco Guarnieri
Chula no Terreiro – Elomar Figueira Melo
Saudosa Maloca – Adoniran Barbosa
Morro Velho – Milton Nascimento
Pedro Pedreiro – Chico Buarque
Mais uma Boca – Fátima Guedes
Ruas da Cidade – Lô Borges/Mário Borges
Onde Está a Honestidade – Noel Rosa
Arrumação – Elomar Figueira Melo
Cordão da Saideira – Edu Lobo
Fantasia – Chico BuarqueAlunos da UEL e músicos da comunidade apresentam hoje em Londrina show que traz uma reflexão sobre a sociedade brasileira por intermédio da MPB
Jorge Corrêa Santos/ARU/DivulgaçãoConjunto formado por 12 pessoas faz um mergulho na realidade nacional com músicas de Elomar, Chico Buarque e Edu Lobo, entre outros

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