50 ANOS DE TEATRO
Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Lala Schneider, com orgulho, é uma cinquentona do teatro. Sua longa estrada pelos palcos teve início em fevereiro de 1950, quando começaram os ensaios da peça Primeiro Amor, de Nilo Brandão, com o grupo amador Teatro de Adultos do Sesi. Direção de Waldemar Silva. As cortinas abriram-se ao público em abril daquele ano, Lala já estava contaminada pelo tablado. Eu fui a má da história, a garota que queria roubar o amor da heroína, lembra a atriz sobre o primeiro papel. No trabalho seguinte foi a protagonista, e desde então nunca mais deixou de atuar. São 50 anos ininterruptos, afirma.
Cuidando de sua escola de atores na Vila Hauer, em Curitiba, onde mora há 40 anos, a artista aguarda convites para novas produções. Disposição não lhe falta para viver os mais diversos personagens, desde que o papel seja interessante e o diretor realmente capacitado. Esses fatores pesam na decisão de Lala, especialmente a qualidade do texto.
No teatro, valorizo muito o texto. Se não for bom, me nego a fazer, sublinha. Uma boa montagem poderia se tornar comemorativa ao meio século de teatro? Não. Lala nem pensa nisso, ela quer é estar no burburinho do espetáculo, compondo a persona, decorando o texto, fixando as marcações. Eu quero é estar lá, no meio do palco, nos ensaios. Isso é minha vida.
A Fundação Cultural de Curitiba programou para o mês de março uma exposição retrospectiva de sua carreira e com isso ela está apaixonadamente envolvida. De gavetas e caixas tira seus guardados: recortes de jornais, programas dos espetáculos, fotos, cartazes. Não sei o que é que vão usar, diz, enquanto tenta organizar o material.
Em meio aos papéis destaca-se um com a imagem do indiozinho que era o símbolo da TV Tupi. Tão importante na época, como o logotipo da TV Globo para a atualidade. Das novelas em que participou, lembra-se de O Direito de Nascer. Fui dona Conceição, mãe de Maria Helena e avó de Albertinho Limonta.
Por todas estas décadas Lala Schneider trabalhou como atriz e diretora. Jamais assinou uma única produção, e isso a incomoda um pouco. Acho que o grande pecado durante a minha carreira foi esse: nunca ter sido empresária teatral. Nunca montei nada, não dei emprego a ninguém. Fui aceitando convites para trabalhar como atriz ou na direção. Esse considero meu defeito, eu devia ter lutado mais.
Ela está na luta para abrir um espaço cultural no bairro. Seu sonho é ter uma sede na Vila Hauer onde os jovens possam fazer teatro, dança, música, pintura. E que isso possa vicejar em outros pontos da cidade. Tenho muita vontade de ver isso realizado, afirma.
A atriz ressente-se da concentração de casas de espetáculos no miolo de Curitiba. É preciso descentralizar, defende ela, e faz um comparativo da mágoa do curitibano sobre o eixo Rio/São Paulo com a situação. Nós nos sentimos esquecidos, em relação aos paulistanos e cariocas, mas por que cometemos aqui o mesmo pecado? É só o centro da cidade que tudo merece: tem os auditórios do Guaíra, tem o Zé Maria Santos, o Lala Schneider, a Casa Vermelha... Os bairros não merecem um teatro?
Essas casas teriam público? Ah, sim, e como teriam!, responde Lala. Talvez até mais do que no centro, porque as pessoas dos bairros se constrangem um pouco. Elas ainda acham que para ir ao teatro é preciso se produzir, ir chique. Muitas têm curiosidade em assistir a uma peça, mas falta coragem de entrar no Guairão, por exemplo. Não passam da porta.
Esse comportamento herdado de outros tempos, precisa ser mudado. Teatro tem que ser popular, tem que ser feito para o povo, argumenta a artista. Entenda-se que popular não quer dizer porcaria, adverte. As pessoas merecem usufruir da magia dos belos espetáculos e como eu moro aqui há 40 e tantos anos, é aqui que eu quero ver um teatro construído.
Lala tem até o local escolhido, mas não ousa falar. Se o secretário do Meio Ambiente souber, é capaz de me pegar no pé, confidencia. Primeiro quero conversar com ele, convencê-lo de que temos uma praça acéfala que não é usada para nada, a não para o desfile de travestis à noite. Quanto aos travestis nenhum problema são lindas mulheres na esquina, caçando os carros que passam mas por que uma praça vazia? Uma coisa é certa: se conseguir o terreno, a construção seria uma outra história. Não precisamos de um prédio maravilhoso; mas também não quer dizer que seria uma coisa esculhambada. E não seria só teatro, mas que tivesse espaço para aulas de todas as áreas da cultura: artes plásticas, dança, música. Eu quero que exista, só isso.Aos 74 anos de vida e meio século de carreira, Lala Schneider faz planos e fala de sua paixão pelo palco
Arquivo FolhaLala Schneider ainda quer estar no burburinho do espetáculo: Isso é a minha vidaReproduçãoCena de O Exercício (1977), com José Maria dos Santos, da Cia Dramática IndependenteReproduçãoNo filme Galhos do Casamento (1980), direção de Cherval, com Roberto MenguinniReproduçãoEm O Macaco da Vizinha (1960) com João José de Arruda NetoReproduçãoNo monólogo Antes do Café (1959), dirigido por Eddy Franciosi





