50 ANOS DE FOLIA
MEMÓRIA 50 ANOS DE FOLIA Há meio século Dodô e Osmar revolucionaram o Carnaval criando o trio elétrico, porta-voz de uma verdadeira miscelânea musical Arquivo FolhaO trio elétrico se tornou sinônimo de Carnaval de ruaArquivo FolhaDodô e Osmar fundaram as bases para as bandas que fazem sucesso no Carnaval da BahiaDivulgaçãoMoraes Moreira foi o primeiro cantor a soltar a voz em um trio elétrico Ricardo de Souza Agência Estado Numa tarde de 1950, os amigos baianos Adolfo Nascimento e Osmar Macedo entraram na lojas de instrumentos musicais A Primavera, em Salvador. Olha daqui, olha dali, e os dois finalmente escolheram uma guitarra. Contudo, para desespero do vendedor que os atendia, começaram a quebrar o instrumento. Pouco depois, com a peculiar serenidade baiana, Osmar explicou ao gerente: Fique calmo, nós vamos pagar, mas só queremos o braço da guitarra. Aquele momento desencadearia, no mesmo ano, uma revolução na música baiana e brasileira. Nascia ali o trio elétrico de Dodô e Osmar. Para marcar os 50 anos de criação dessa que é uma das maiores manifestações culturais da Bahia, os filhos de Osmar Aroldo, Armandinho, André e Betinho lançaram o CD O Jubileu de Ouro Armandinho, Dodô e Osmar, pelo selo Geléia Real, de Flora Gil, mulher de Gilberto Gil. Mas há mais novidades para a festa. No lugar do tradicional caminhão, foi criada uma réplica do famoso Ford-fubica 1929, no qual Dodô e Osmar sacudiram, pela primeira vez, uma multidão ao som irresistível do pau-elétrico, instrumento inventado pela dupla e que se tornou precursor da guitarra baiana. O som será o mesmo, em dolby, mas a surpresa será o fubicão, que deu um trabalho danado para construir, conta o filho de Osmar, Aroldo Macedo, responsável pela produção musical do CD. Com as saídas do trio ocorre uma homenagem a Moraes Moreira, primeiro cantor a soltar a voz num trio elétrico e que faz seu retorno ao carnaval baiano. Paralelamente ao carnaval, foi publicado um livro e está sendo produzido um documentário sobre a história do trio elétrico. O primeiro, intitulado 50 Anos de Trio Elétrico, foi escrito pelo compositor e dramaturgo carioca Fred Góes. A obra patrocinada pela Copene Petroquímica Nordeste S.A. foi escrita inicialmente como dissertação de mestrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1982. A luxuosa edição foi revista e ampliada, acrescentando-se entrevistas com artistas, material iconográfico cedido pela família de Dodô e Osmar, um texto sobre a história do trio elétrico e do carnaval baiano e um depoimento inédito de Caetano Veloso. O autor narra os primórdios do trio, em 1950, quando Dodô e Osmar se inspiraram na apresentação do Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas, do Recife, que agitou o povo baiano com o autêntico frevo de Pernambuco. As comemorações pelo aniversário de meio século do trio vinha sendo planejada pelo próprio Osmar, morto em 1997. Desde 1994 meu pai já sonhava e falava dessa data, conta Aroldo. Ele dizia: Que Deus me dê forças para chegar ao ano 2000. Não chegou, infelizmente, mas seus quatro filhos deram continuidade aos seus planos. O CD Jubileu de Ouro é uma celebração à força e originalidade da guitarra baiana e à pluralidade sonora criada por Dodô e Osmar. O disco só traz uma regravação: Chame Gente, de Armandinho e Moraes Moreira, que hoje dá nome ao trio elétrico do cantor. A faixa conta com participações especiais de Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Carlinhos Brown, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Ivete Sangalo, Durval Lellys e Ricardo Chaves. Na música, foi inserida uma gravação original de Osmar tocando guitarra havaiana, conta Aroldo. O CD também conta com um pot-pourri com os clássicos Bolero (Maurice Ravel), Flauta Mágica (Mozart), e Vôo do Besouro (Nicolai Kosakov). Sem falar de interpretações de Something, de George Harrison, e do hit baiano Água Mineral, de Carlinhos Brown, que se tornou sucesso com o grupo Timbalada. Uma das especialidades de Dodô e Osmar era promover essa miscelânea musical, partindo de composições próprias até chegar ao rock e ao erudito. Ele começou a fazer isso nos anos 50 e até hoje o povo adora, garante Aroldo. O apego às características básicas do trio elétrico é um motivo de orgulho para os filhos de Osmar. Nesse tempo todo, fizemos o que aprendemos com nosso pai, sem apelar para modismos, garante Aroldo. A partir dessa coisa pop criada por eles, nasceram quase todas essas bandas que hoje fazem sucesso no carnaval da Bahia. Essa coisa pop a que Aroldo se refere é adoção pelo trio elétrico de músicas até então estranhas ao carnaval baiano. Músicas de gente como Jimi Hendrix e Beatles. Mais tarde, nove entre dez trios baianos fizeram o mesmo. Até 1975, o que se via eram cópias de Dodô e Osmar, afirma Aroldo. Depois, os filhos reforçaram as inovações, incrementando o som pop com a utilização de bateria, contrabaixo e outros instrumentos que na época estavam restritos às bandas de rock. A participação de Moraes Moreira na trajetória do trio de Dodô e Osmar é também lembrada com carinho pela família Macedo. Tratamos Moraes como um irmão desde os tempos em que vinha para Salvador e ficava em nossa casa, revela Aroldo. Era a década de 70, época em que o cantor baiano e os filhos de Osmar ainda eram adolescentes sonhando com a carreira musical. Meu pai adaptou o som do trio para a voz e convidou Moraes para cantar; e ele ajudou muito com sua inteligência e letras geniais. Em sua estréia, cantou Pombo-Correio, escrita por ele em 1977 a partir da música composta em 1953 por Osmar. O cantor e compositor é um dos convidados ilustres do trio elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar no carnaval deste ano. Contudo, Moreira vai comandar, ao lado de Gilberto Gil, o trio Chame Gente, cuja construção está sendo supervisionada pela produtora Caco de Telha, da cantora Ivete Sangalo. O trio terá três palcos e uma arquibancada para convidados. O Chame Gente será um trio sem cordas, feito para o povo, com a qualidade técnica que o carnaval da Bahia merece, diz Moreira. Diferentemente de outros trios, o Armandinho, Dodô e Osmar alterou seu trajeto este ano. A mudança do local do desfile passou da Praça Castro Alves para a Barra causou um mal-entendido entre os foliões. Muita gente interpretou a notícia como o fim do encontro dos trios na praça. Não é verdade. A tradicional confraternização continua a ocorrer, só que sem a presença do trio de Dodô e Osmar, que, em virtude das comemorações, optou por um local mais amplo. Vamos para a Barra apenas por uma questão de espaço, já que na Castro Alves fica muito apertado, esclarece Aroldo. A influência da invenção dos dois amigos pode ser vista em todo o País. Hoje, proliferam as conhecidas micaretas, que animam carnavais fora de época em todos as capitais brasileiras, de São Luís a Porto Alegre. O trio elétrico tornou-se também um poderoso veículo de comunicação de movimentos políticos, sindicatos e até mesmo da Igreja Católica. Para quem não se lembra, padre Marcelo Rossi e companhia já subiram em caminhões para cantar suas músicas religiosas. Essa dimensão gigantesca que o trio elétrico ganhou no carnaval e o lucro que proporciona rende à capital baiana cerca de R$ 100 milhões durante os cinco dias de festa não sobe à cabeça dos Macedos. Eles dizem que o dinheiro nunca foi um objetivo de Osmar e Dodô. Meu pai ganhava a vida com seu trabalho na construção civil e metalurgia, explica Aroldo. Ele e Dodô se contentavam em espalhar alegria pelas ruas. Uma das músicas do novo CD da família Macedo, Tecnologia Tropical, de Armandinho e Fred Góes, homenageia de forma precisa essa alegria: Toda vez que ouvir tocar um trio/ um trio elétrico/ seja aqui ou em qualquer lugar/ lá estará o meu velho Osmar/ junto com Dodô revolucionou/ o carnaval brasileiro.





