Paulo Polzzonoff Jr.
De Curitiba
Especial para a Folha2
‘‘Sim, sou brasileiro e bem brasileiro. Na minha música eu deixo cantar os rios e os mares deste grande Brasil. Eu não ponho mordaça na exuberância tropical de nossas florestas e dos nossos céus, que eu transponho instintivamente para tudo que escrevo’’. Assim se definia Villa-Lobos, que há exatos 40 anos sucumbia a um câncer e deixava o país um pouco em silêncio. Homem de gênio forte e excepcional talento, Villa-Lobos passou boa parte de sua vida numa semi-obscuridade a que só o brasileiro sabe submeter seus maiores nomes. Reconhecido internacionalmente por sua música cheia de elementos folclóricos do país que o rejeitava, só no final da vida é que Villa-Lobos seria reconhecido no Brasil.
Heitor Villa-Lobos aprendeu a tocar seu primeiro instrumento, um violoncelo adaptado de uma viola, aos seis anos de idade, incentivado pelo pai, um funcionário da Biblioteca Nacional e amante da música. Nesta mesma época, graças a uma tia, teve o primeiro contato com a obra de Johann Sebastian Bach, que o influenciaria profundamente. Villa-Lobos seria somente mais um compositor a repetir a tradição européia não fosse pelas viagens que, ainda criança, empreendeu pelo interior do Brasil. Nestas viagens o menino conheceu as modas de viola e todo o universo folclórico que iria ser a marca de sua genialidade.
A busca por elementos genuinamente brasileiros levaria Villa-Lobos a uma peregrinação pelos mais remotos pontos do país. De norte a sul o compositor recolheu elementos de uma diversidade cultural que as elites das cidades faziam questão de ignorar.
No início do século o violão era tido como um instrumento maldito, praticado somente por malandros e desajustados. Villa-Lobos, já com vinte anos, interessou-se por este instrumento tão hostilizado pelos músicos da época. Para aprender a tocá-lo, embrenhou-se no submundo carioca, onde teve contato com o que hoje conhecemos por chorinho. Quem executava o choro eram os marginais, que recebiam a alcunha de chorões. Por influência da música dos morros é que Villa-Lobos comporia, no início da década de 20, catorze pequenas obras intituladas ‘‘Choros’’. Nascia um iconoclasta no meio musical brasileiro.
A modernidade de sua música incomodava os críticos da época, que o consideravam primitivo e dissonante. Em 1922, Heitor Villa-Lobos escandalizaria a nata intelectual brasileira durante a Semana de Arte Moderna com a apresentação de ‘‘Danças Características Africanas’’. A elite da época não podia conceber a coexistência entre a música clássica e os ritos de um continente que tinham por inferior. Com ‘‘Danças Características Africanas’’ Villa-Lobos rompia com o wagnerismo, o puccinismo, o franckismo e o impressionismo, tendências que dominavam o cenário musical brasileiro.
Em 1923, graças a um incentivo conseguido junto à Câmara dos Deputados, Villa-Lobos parte para Paris, onde entra em contato com o pianista Arthur Rubinstein, a soprano Vera Janacópulus e os editores Max-Esching, responsáveis pela divulgação de sua obra no Velho Continente. Quando retornou ao Brasil, um ano mais tarde, muitos pensavam que o compositor de tendências populares teria se rendido aos encantos da aristocracia européia. Mas, nas palavras do poeta Manuel Bandeira: ‘‘Villa-Lobos acaba de chegar de Paris. Quem chega de Paris espera-se que chegue cheio de Paris. Entretanto, Villa-Lobos chegou cheio de Villa-Lobos (...)’’.
Não satisfeito com o rumo de sua carreira, que tinha total reconhecimento nos círculos intelectuais estrangeiros mas não alcançava a essência de sua música, o povo brasileiro, na década de 30 Villa-Lobos decidiu apresentar à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo um audacioso projeto de educação musical. O governo de Getúlio Vargas, mostrando inesperado interesse pela idéia, tornou o ensino de música obrigatório nas escolas. Com o apoio do Governo, Villa-Lobos chegou a reunir 40 mil vozes nas suas ‘‘Concentrações Orfeônicas’’. Os inimigos do compositor jamais perdoariam esta aproximação com Getúlio. Foi ainda na década de 30 que Villa-Lobos compôs sua obra-prima, as ‘‘Bachianas Brasileiras’’. Criadas para homenagear o compositor alemão Johann Sebastian Bach, as ‘‘Bachianas’’ são compostas por nove suítes infestada de elementos folclóricos mesclados com o clima austero e litúrgico de Bach. Este trabalho consumiu ao todo 15 anos da vida do compositor.
Durante toda a década de 40, Villa-Lobos excursionou pelos EUA, a convite do maestro Werner Janssen. Em 1945 fundou a Academia Brasileira de Música, cujos primeiros membros ele mesmo designou. Enquanto no Brasil era acusado de colaboracionista com o governo ditatorial de Vargas, nos EUA recebia honrarias.
Villa-Lobos é autor de cerca de mil obras. Além dos ‘‘Choros’’ e das ‘‘Bachianas Brasileiras’’, compôs também os bailados ‘‘Amazonas’’ e ‘‘Uirapuru’’, doze sinfonias, dentre as quais se destaca a de número 10, chamada ‘‘Sumé Pater Patrium’’, as óperas ‘‘Izaht’’ e ‘‘Yerma’’, as ‘‘Serestas’’, ‘‘12 Estudos e 5 Prelúdios para Violão’’, obras corais como a ‘‘Missa de São Sebastião’’, e ainda música de câmara, fantasias e concertos para vilão, violoncelo, piano e gaita de boca.
Sobre sua obra, Villa-Lobos não economizava nas palavras: ‘‘Considero minhas obras como contos que escrevi para a posteridade, sem esperar resposta’’. Se a modéstia não lhe cabia, era porque tinha ciência de sua genialidade.

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