Ele foi discípulo de Sigmund Freud, talvez o seu melhor aluno. Tão aplicado que se libertou das teorias do médico vienense e contribuiu de maneira única à psiquiatria - desenvolveu as primeiras teorias psicológicas fundamentadas no inconsciente. Carl Gustav Jung, suíço da pequena Kesswil, faleceu neste mesmo 6 de junho, há quatro décadas, em sua casa, contando 86 anos.
Filho de um pastor protestante, Jung desde cedo interessou-se pela psiquiatria. Dos 20 aos 25 anos, estudou ciências naturais e medicina na Universidade de Basiléia. Em 1898, iniciou os estudos preliminares para sua dissertação ‘‘Sobre a Psicologia e Patologia dos assim chamados Fenômenos Ocultos’’. Em 1900, um marco que mudaria a sua vida para além do que poderia imaginar - o primeiro contato com a obra de Freud. Apesar deste encontro intelectual, o primeiro encontro físico ocorreria sete anos depois, em Viena.
Após anos de convivência e de discussões sobre o inconsciente, uma primeira divergência. Enquanto Freud acreditava que o inconsciente funcionaria apenas como um depositário de nossos anseios e desejos reprimidos, Jung potencializou o inconsciente em limites nunca avaliados. Para ele, é a consciência que surge do inconsciente (não o contrário), sendo este, uma grande força matriz, que interfere no consciente. Não conciliando seu ponto de vista com o de Freud, rompe gradualmente com o austríaco em 1914.
Desde então, Jung seguiu rumo independente, aprofundando-se nas idéias que nos revelariam a existência do inconsciente coletivo - uma espécie de memória coletiva da humanidade em que mitos, símbolos, arquétipos se moldam e se solidificam influenciando o nosso cotidiano e nossa visão de mundo de maneira avassaladora.
Nos anos 20 e 30, realizou diversas viagens, expedições em busca de culturas novas e diversas, que contribuíram para a consolidação do conceito de inconsciente coletivo. Segundo Jung, o modo de pensar e agir de uma lavadeira, de um ladrão, de um estuprador, de um poeta - toda a diversidade que existe na humanidade - também reside em nós. Estão presos em potencial, mas a expressão de cada um deles é imprevista e possível. Daí a conclusão primorosa do personagem de Pierre Menard, em conto homônimo escrito pelo argentino metafísico Jorge Luis Borges. No escrito, Menard tenta imitar Miguel de Cervantes na construção de ‘‘Dom Quixote’’. Imita seu dia-a-dia, refaz sua trajetória, copia os hábitos e assemelha a visão das coisas. Resultado: consegue recriar a obra de Cervantes à absoluta perfeição. Conclui Borges: todos os homens são capazes de ter todas as idéias. Enfim, uma confirmação da teoria de Jung.
Outro literato que descobriu princípios idênticos ao de Jung foi o poeta também da metafísica Fernando Pessoa. Em suas ‘‘Idéias Estéticas’’, Pessoa filosofa sobre o processo criativo. Ele diz que uma invenção tem de estar sempre agregada a um valor. Não um valor raso, de poucos atributos. Um valor universal e estético. Dai junta-se a inteligência. Esse instinto intelectual finalmente consolida o que Pessoa chama de processo criativo; e que Jung reconhece sob outros termos. Jung entende que ao criar, o artista visualiza o mundo em que vive de maneira clara, límpida. Associa esse mundo ao seu resíduo de mitos e símbolos consciente ou inconscientemente, e mostra à sociedade com a qual convive verdades e tabus que a afligem e a constituem. Como se Shakespeare pudesse ter um acesso ao seu inconsciente mais constante e profundo que os demais cidadãos de Strattford-upon-Avon, vilarejo onde nasceu. Haveria uma facilidade, ainda não explicável, de acessar o fluxo da vida, o caos inerente à natureza mas que todos tentamos organizar.
Quem explica o processo da genialidade é a psicanalista junguiana Sonia Lunardon Vaz. Estudiosa de Jung há anos, ela considera o autor chave essencial para se compreender a humanidade. Segundo Sonia, a humanidade regrediu em alguns aspectos. Por exemplo: qual é o símbolo do amor nos dias atuais? Um anjinho de fraldas, não? O cupido. Entretanto o verdadeiro símbolo do deus Eros é um homem alto, loiro, esbelto e forte. Uma beleza madura, que conota virilidade, sexualidade. Em nossos dias, a sociedade resiste sob um pudor implícito em que este símbolo causaria desconcerto, por isto a regressão à imagem de uma criança, bem quando se fala de amor.
Sonia dá inúmeros exemplos de como Jung nos ajuda a entender a modernidade. Segundo o estudioso do inconsciente, a psique - que pode ser entendida como mente ou alma - tem quatro funções: pensamento, sentimento, intuição e sensação. As duas primeiras são ligadas à razão, apolíneas; enquanto as duas restantes são irracioanis, dionisíacas. Sonia explica que o ocidente, desde o advento do Iluminismo, vem privilegiando a razão. Por quê? Pois com a razão acentuada, é muito mais fácil a sociedade civil se organizar, as pessoas se controlarem e permitirem o controle. O passional, imprevisto, instintivo é relegado ao que é certo e cômodo, seguro e lucrativo, ao menos materialmente. Trata-se de uma fragilidade da sociedade que perde o sentido da vida, pois só a razão impera, impulsiona e ordena o viver. Uma patologia, assegura Sonia.
Mas a maior explicação para a sociedade moderna provém de outra mitologia. Segundo Sonia, o deus nórdico Wotan - o deus das tempestades - pede à deusa Phreya para ser admirado. Ele sacrifica o amor, a juventude e a beleza unicamente para ser admirado. E o que acontece com a humanidade nos dias de hoje? Vivemos em busca de conforto material e relações tranquilas com as pessoas que nos circundam. Sacrificamos o amor, a jovialidade e o brilho da vontade por um conforto racional, que nos suaviza a dor do viver. Seria um engano, uma fuga de nós mesmos? Sim. Sonia explica que a humanidade perdendo esta vitalidade se apega cada vez mais à razão e solidifica as regras de um sistema consolidado no pensar.
Para se entender melhor o mito de Wotan, Sonia cita uma ópera de Wagner, em que o deus nórdico surge chamando o símbolo do feminino: ‘‘Levanta-te do sono do conhecimento e me ama’’. Contudo, quando o símbolo se aproxima de Wotan, ele a obriga a voltar imediatamente ao sono. O alemão Friederich Nietzsche não entendeu o porquê desta atitude, assim como o leitor deve estar perplexo. Mas esse ato contraditório é explicável - Sonia diz que a humanidade hoje tem medo do afeto, da intimidade, de uma entrega incondicional. Por isto quando estamos próximos ao amor nos afastamos, pondera. Wotan, que anda sempre com um cajado de leis - assim como o sistema que organiza a nossa sociedade - é o símbolo perfeito de nossos tempos, assegura Sonia. Se não houvesse Jung, certamente seria mais difícil compreender aquilo que entendemos como homem.

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