40 ANOS DE PALCO
Gabriela Morales
Agência Estado
Ele já foi bancário, esportista, jornalista, professor de violão, dono de empresa, desempregado... até casei, talvez para pagar na terra os pecados que cometerei no céu, brinca. Agora, aos 60 anos de idade, o irreverente Juca Chaves - carioca, mas civilizado em São Paulo e, como bom burguês, torcedor do São Paulo - continua mantendo o mesmo pique de sempre, fazendo shows pelo País e jamais dispensando uma piadinha em suas conversas.
Juca comemora seus 40 anos de carreira artística este mês, num momento muito especial: ele e a mulher Yara, 46 anos, que não tinham filhos, adotaram recentemente uma menina negra deixada numa igreja no interior da Bahia e estão adorando a experiência. Tanto é que o casal pretende adotar mais crianças. Acho muito egoísta colocar mais uma pessoa no mundo, com tantas por aí sem pai nem mãe, comenta. Queremos adotar mais crianças, não sabemos quantas e não importa a cor da pele, idade e sexo.
Foi uma visita à Tamine - uma entidade de assistência a crianças carentes de Salvador - que fez o cantor e compositor tomar essa decisão. A menina foi batizada em São Paulo com o nome de Maria Clara, escolhido pelas freiras que a recolheram. Por coincidência, este é o nome da minha mãe, comentou Juca. Outra coincidência: as duas nasceram em 5 de setembro.
Com mais de 40 discos gravados, o mais recente deles uma coletânea de suas sátiras, modinhas e piadas, ele estuda propostas para participar de programas no rádio e na tevê e faz shows pelo País, inclusive em convenções empresariais. Mora há 16 anos no que ele define como Principado de Itapuã, na Bahia. A afinidade muito grande com essa praia vem desde quando ele gravou sua primeira modinha - Coqueiros de Itapuã, composta por Dorival Caymmi.
Juca, filho de austríacos, adora sua profissão, que lhe rendeu boas histórias e alguns processos, até hoje. Criei mais de cem sátiras, conquistei mais de cem inimigos poderosos, lembra. Cada show seu sempre tem algumas piadas novas, e a bola da vez é o governo FHC. Mas foi nos tempos de Juscelino Kubitschek que ele viveu sua melhor fase artística, a ponto de ser recebido pelo próprio presidente, homenageado das músicas mais famosas do menestrel maldito:
Bossa nova mesmo é ser presidente/desta terra descoberta por Cabral/Para tanto basta ser tão simplesmente/simpático, risonho, original/Depois de desfrutar das maravilhas/de ser o presidente do Brasil/voar da Belacap pra Basília/Ver Alvorada e voar de volta ao Rio (...)
Não teria adiantado tirar o sapato para cantar para o Juscelino se a música Presidente Bossa Nova não alcançasse o gosto popular, afirma. De nada adiantariam minhas prisões se as sátiras contra as autoridades atingidas não fosse o próprio pensamento do público. A essa identificação eu devo parte do meu sucesso com o meu público.
O grande filão de Juca sempre foi a política, mas seu repertório também inclui músicas românticas, como a modinha Por Quem Sonha Ana Maria, por exemplo (Na alameda da poesia / chora rimas o luar / madrugada e Ana Maria / sonha sonhos cor do mar / por quem sonha Ana Maria / quem está triste a cantar...). E, embora compostas lá pelos anos 60, na maioria, suas canções continuam com um fundo bem atual, como se comprova pela letra de Tô Duro:
Ultimamente o meu viver tem sido escuro / o vil metal fez do meu bolso um inimigo / o meu sapato é uma manchete / só tem furo/e ando mais duro que o filé que mal mastigo / Qual um foguete americano eu sou um fracasso / tento subir, porém só desço neste mundo / estou mais pobre que cultura de ricaço / já nem no banco onde adormeço tenho fundo...
A fase do caviar já não é mais tão decantada como antes. Agora eu tenho que comer um e, mesmo assim, só consigo comer caviar quando sequestro o salmão.Juca Chaves, que comemora 40 anos de carreira este mês, continua cultivando a irreverência
Arquivo FolhaGrande filão de Juca Chaves sempre foi a política, mas seu repertório também inclui músicas românticasConquistei mais de cem inimigos poderosos





