Há 40 anos Plínio Marcos escreveu à mão e cheio de ódio ‘‘Barrela’’, peça ambientada numa cela fétida e apertada, que conta a história de um amigo de infância estuprado na cadeia. Depois de libertado, ele se vinga de todos os que o curraram, matando um a um. Isso foi em 1958. Entre prêmios, rótulos e maldições, nesses 40 anos de dramaturgia, o jorro de criação do autor não parou. Foram mais de 40 textos, entre teatro, romance e crônica.
Outro grande sucesso pode ser registrado em sua carreira: ‘‘Dois Perdidos Numa Noite Suja’’ (1966) é a terceira peça mais montada no Brasil. Perde apenas para ‘‘As mãos de Eurídice’’, representada por Rodolfo Meyer e ‘‘Deus lhe Pague’’, com Procópio Ferreira.
O dramaturgo considera que algumas de suas peças são clássicas, mas não é sua culpa. É o país que não evoluiu socialmente. A prostituição só piorou, tema de ‘‘Navalha na Carne’’ e ‘‘O Abajur Lilás’’, e o sistema carcerário nunca foi tão ruim como agora, tema de ‘‘Barrela’’ e ‘‘Mancha Roxa’’.
O crítico teatral Sábato Magaldi assim define o dramaturgo: ‘‘nunca um escritor nacional se preocupou tanto em investigar sem lentes embelezadoras a realidade, mostrando-a ao público na crueza de matéria bruta’’.
Seu texto é enxuto, sem delongas, sem artifícios. Dramaturgia autêntica, vigorosa e radical. A sobrevivência dos personagens é através da exploração do outro, sem concessão de qualquer tipo. O caminho visível é o da destruição, do aniquilamento.
Agora Plínio Marcos está produzindo uma série de contos chamados ‘‘Crônica de Pequenos Artistas’’. São histórias de pessoas que trabalham em boates do cais do porto ou no circo. O período que trabalhou no circo continua sendo uma inesgotável fonte de inspiração.
O texto ‘‘Mancha Roxa’’, peça que fala sobre a Aids, teve a recusa de mais de 70 atrizes. Ele conta que o filho estava ganhando dinheiro com a peça ‘‘Dores de Amores’’ e resolveu montar o texto inédito e já considerado maldito. Um crítico, na época, escreveu ‘‘essa é uma obra-prima que ninguém deve assistir’’. Resumo da ópera: Plínio Marcos acabou ganhando prêmio como melhor autor. Ele vociferou: ‘‘vão tomar no c., precisamos de notícia e não de prêmios’’.
A história de ‘‘Mancha Roxa’’ surgiu da indicação de um juiz corregedor que encomendou um take para que Plínio Marcos explicasse como acontece a transmissão da Aids. Ele resolveu visitar uma cadeia em Santos. Dos 300 presos, 70 estavam contaminados, confinados num departamento do presídio. ‘‘Isso me deu uma tristeza muito grande.’’
No presídio feminino ficou sabendo da história de um casal de lésbicas, uma delas estava contaminada. Queriam tirá-la de lá. ‘‘Se entrarem aqui, corto a veia dela e jogo sangue em vocês’’, argumentava uma das detentas, impedindo assim que a garota fosse retirada do local. Essa história incomodou muito Plínio, ele não dormia mais à noite. Numa dessas noites de insônia, ele escreveu o texto numa sentada só, de fio a pavio.
Recentemente, o texto ‘‘A Dança Final’’ (a infeliz história de um cara que brocha), teve que ser reescrita em função do surgimento do remédio que combate a impotência masculina, o viagra. (F.F)

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