40 anos de Bossa Nova
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terça-feira, 18 de agosto de 1998
Nelson Sato 
Era esperado. Há quarenta anos de sua eclosão, a bossa nova completa mais um ciclo de revival no país com relançamento de discos, shows comemorativos, documentários para a TV, publicação de biografia e até uma produção cinematográfica.
A festa começou mês passado no Rio de Janeiro, onde a prefeitura promove uma série de shows com protagonistas e herdeiros do movimento. Batizado de Rio Sempre Bossa Nova, o projeto está trazendo de volta aos palcos nomes como Os Cariocas, Carlos Lyra, Baden Powell e gente como Carol Saboya que sequer tinha nascido quando o LP Chega de Saudade aterrissou nas lojas com aqueles vocais intimistas acompanhados de levadas inovadoras ao violão.
O álbum é tido como o marco oficial do lançamento do movimento. Saiu em agosto de 1958, época em que os brasileiros viviam a euforia dos anos JK e sob o sonho do país do futuro. Seu autor, João Gilberto, virou o grande catalisador da nova batida embora tenha antecipado em alguns meses o que viria a seguir com sua participação em duas faixas do álbum Canção do Amor Demais, de Elizete Cardoso, no célebre um minuto e 59 segundos que mudaram tudo.
Para comemorar os bons tempos, os shows cariocas serão esticados até dezembro. Paralelamente, as gravadoras também se agitam com o revival. O próprio disco de Elizete ganhou um relançamento em versão compact disc. Para outubro, é aguardado o registro ao vivo do show Vivendo Vinícius, que reuniu Carlos Lyra, Baden Powell, Toquinho, Miúcha e Maria Luíza (filha caçula de Tom Jobim) no palco do Metropolitan, mês passado no Rio.
O cardápio do oba oba fonográfico, todavia, poderá ficar sem seu principal prato. O famoso álbum de estréia de João Gilberto virou objeto de batalha judicial entre o músico e sua gravadora, correndo o risco de não chegar às lojas como estava nos planos da EMI (antiga Odeon). É que o artista se mantém irredutível numa ação contra os patrões pelo lançamento há dez anos do disco O Mito - que reunia seus três primeiros álbuns no formato CD - alegando problemas contratuais e falta de qualidade da remasterização.
Tretas à parte, a bossa nova volta à ordem do dia também na TV com o anúncio de três projetos de documentários sobre o movimento. A TV Cultura prepara uma série de especiais que serão exibidos no programa Metrópolis (de segunda a sexta às 21h30 e sábados às 20h30) a partir de setembro. Mas ainda não temos uma data definida. Provavelmente vai ser no final do mês - informa a assessora de imprensa Cláudia Hataro.
ReproduçãoTom Jobim e Vinícius de Moraes: dupla antológicaSegundo ela, a equipe ainda está trabalhando na produção. Entre as atrações do programa consta uma reportagem sobre a apresentação feita em novembro de 62 no Carnegie Hall, em Nova York (EUA), com participação de Tom Jobim, João Gilberto, Luis Bonfá e outros ilustres. Haverá ainda depoimentos de personagens que ajudaram a divulgar a nova música, como Walter Silva, que comandava o programa de rádio Picape do Pica-Pau, na rádio Bandeirantes.
Uma série sobre a bossa nova também será levada ao ar neste segundo semestre pelo canal pago Multishow. O projeto está sendo tocado pela produtora TV 1, a mesma que realizou os documentários 3 x Leila e 50 anos de História para a GNT. Não dá para adiantar muita coisa - explica a diretora Lúcia Araújo. O programa ainda está em fase de gestação, mas o plano inicial prevê a realização de três episódios com duração de 30 a 45 minutos cada. A idéia é que o formato seja mais de musical do que de documentário.
Também com um pé na TV paga, um filme será rodado ainda este ano sob o comando da atriz Kate Lyra. Tempo de Bossa Nova, como foi intitulado, vai trazer a assinatura da atriz na produção, direção e roteiro. O projeto inclui duas versões: uma de 90 minutos para o cinema, e outra dividida em cinco episódios de 30 minutos para a televisão. Como se fosse pouco, as letras também vão alimentar o revival. O incansável crítico musical Sérgio Cabral já anunciou que está escrevendo uma biografia de Nara Leão, musa de primeira hora do movimento.
Quarenta anos depois, a filha moderna do samba tradicional põe todo mundo para assoviar e bater o pezinho de novo.


