30 horas em cena
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quarta-feira, 19 de março de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Passar uma hora no teatro, seja na platéia ou no palco, pode ser uma experiência tediosa ou fascinante, dependendo da proposta do espetáculo. A Companhia Ethos de Teatro decidiu multiplicar esse risco por 30 e vai passar exatamente 30 horas encenando uma peça. O espetáculo ''Retrato Falado'', dirigido pelo curitibano Eberson Galiotto integra os ''Eventos Especiais'' do 12 Festival de Teatro de Curitiba, que começa hoje. A intenção é entrar no livro dos recordes como a peça que mais tempo foi encenada, sem reposição de atores.
''Retrato Falado'', texto de Teresa Frota, conta a história de João, um homem comum que presencia um suicídio dentro de um ônibus. Ao contar a cena para a sua mulher, ele vê a história se transformar e ganhar contornos inesperados, a medida que é passada adiante. A peça é inspirada na antiga brincadeira ''telefone sem fio'' ou no velho ditado ''quem conta um ponto aumenta um ponto''.
Durante 45 minutos, nove atores interpretam 17 personagens. Eles têm 15 minutos de descanso antes de começar tudo outra vez. O público, claro, não é o mesmo, a não ser que algum espectador desconfiado queira participar da maratona e conferir se o elenco consegue manter o ritmo de apresentação durante o tempo que se propõe. ''Esse é o nosso desafio, manter a mesma qualidade do espetáculo durante 30 horas'', diz o diretor.
Recém-formado pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP), Galiotto conta que optou pela praticidade na concepção do espetáculo. ''Tive que criar cenas mais simples, mas nem por isso menos criativas'', adianta. A mesma opção foi estendida ao figurino e maquiagem, algo ''básico'' para facilitar a interpretação pelas 30 horas consecutivas. Os atores vestem o mesmo figurino, com adereços que diferenciam os personagens. Para garantir a integridade física do elenco, os artistas são acompanhados por médicos, psicólogos, nutricionistas e fonoaudiólogos.
A voz, aliás, é um dos grandes desafios dos atores. O ator e um dos fundadores da companhia Ethos, Marcos Zenni, passou por experiência semelhante há dois anos, na peça ''Lá'', que também integrou a programação do Festival de Teatro de Curitiba. O monólogo tinha duração de 25 horas. ''Não cheguei a ficar rouco por causa do acompanhamento médico, mas o desgaste da voz é grande'', revela.
A diferença entre os dois projetos é que ''Lá'' contava com o esforço de apenas um ator. Já ''Retrato Falado'' tem a interpretação didivida entre nove atores: Vitor Schuhli; Bruna Penélope; Dirceu Michalski; Marco Zenni; Antônio Abrunhosa; Suzana Garcel; Jester Furtado; Day Bernardini e Fran Coppola. O grupo vê na proposta ousada uma oportunidade de ter a atenção voltada para o trabalho da companhia, fundada há pouco mais de dois anos, durante o FTC.
Marco Zenni conta que projeto semelhante foi inscrito no livro dos recordes, mas que ''Retrato Falado'' vai além. ''Existe um registro de uma peça que foi encenada na Índia durante 57 horas, mas os atores se revezavam'', lembra. No espetáculo da Ethos companhia, os atores não saem de cena. E a maratona da companhia não acaba com a peça. O grupo está envolvido ainda em outros quatro espetáculos do Fringe (''Apnéia'', ''Clarice'', ''Esquadro 119'' e ''Transe''). Zenni contabiliza que o grupo é a ''companhia que está com mais espetáculos no evento''. Não é verdade.
Somente o paulistano Marcelo Lazzarotto dirige quatro espetáculos, dois na Mostra Contemporânea (''A Hora em que não Sabíamos nada uns dos outros'' e o monólogo ''Loucura'') e outros dois na mostra paralela (''Deu Maromba na Maroma'' e ''A peça didática de Baden Baden sobre o Acordo''). É um exemplo que essa edição do festival veio para quebrar recordes, senão de público, de companhias dispostas a enfrentar a maratona no palco.
Serviço:
''Retrato falado (Projeto 30 horas)'', dia 29, a partir das 12 horas até as 19 horas do dia 30. Ingressos a R$ 10,00 e R$ 5,00.


