Pelo extensão do nome, qualquer um jura que Oscar Lorenzo Jacinto de la Imaculada Concepción Teresa Dias trata-se de um nobre espanhol. Na realidade, o menino que recebeu esse nome na pia batismal, nascido a 16 de agosto de 1906, em Málaga, na Andaluzia, era filho de artistas circenses: do trapezista Oscar Teresa e de dona Clotilde. Porém o futuro lhe reservava o reconhecimento como o maior comediante brasileiro: Oscarito. Hoje, completam-se 30 anos de sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro.
Homenagens estarão acontecendo em alguns canais fechados de televisão, o ‘‘Fantástico’’ dedicou um espaço à sua memória domingo passado, e em Curitiba será exibido nesta noite, às 19 horas, no Instituto Goethe, o clássico ‘‘Aviso aos Navegantes’’ (1951). A fita é uma raridade; outra cópia está sendo restaurada no Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, no Rio.
Morando no Brasil desde os dois anos de idade, Oscarito chegou aos palcos do teatro de revista em 1932. Tinha 24 anos e estreou no espetáculo ‘‘Calma, GG’’, clara referência ao ditador Getúlio Vargas que se tornou um de seus mais ardorosos fãs. O caudilho frequentava as sessões do Teatro Recreio e se divertia com a caricatura feita pelo ator. Em 1933 Oscarito chega às telas do cinema no filme ‘‘A Voz do Carnaval’’, documentário produzido pela Cinédia. Seria o primeiro dos 45 filmes de sua carreira.
O humorista foi o grande astro da chanchada nacional, seu nome atraía multidões às salas de exibição. Em diversas produções ele e Grande Otelo encabeçaram o elenco, sendo que alguns dos títulos transformaram-se em clássicos brasileiros, como ‘‘Nem Sansão nem Dalila’’ e ‘‘Matar ou Correr’’, ambos de 1954. Duas curiosidades sobre estas fitas: em ‘‘Nem Sansão Nem Dalila’’ o ator imita Getúlio Vargas, que viria a se matar alguns meses depois, e ‘‘Matar ou Correr’’ era uma paródia em cima de ‘‘Matar ou Morrer’’, de Fred Zinnemann.
Quem for ao auditório do Instituto Goethe assistir ao ‘‘‘Aviso aos Navegantes’’ verá um trabalho divertido e ingênuo, bem ao estilo do diretor Watson Macedo. O roteiro é de Alinor Azevedo e a fotografia de Edgar Brasil, o mesmo de ‘‘Limite’’, de Mário Peixoto. No elenco está a dupla Oscarito e Grande Otelo, mais o galã Anselmo Duarte, a mocinha Eliana Macedo, Sérgio de Oliveira e José Lewgoy. Números musicais por conta de Adelaide Chiozzo, Ivon Cury, Emilinha Borba, Francisco Carlos, Jorge Goulart, Quatro Ases e Um Coringa entre outros.
A viúva e ex-atriz Margot Loro, que hoje vive na cidade mineira de São Lourenço, só tem palavras de elogio ao marido, com quem esteve casada durante 36 anos. ‘‘Foi excelente namorado, noivo maravilhoso, marido e pai amorosíssimo’’. Sobre o artista que ocupava as telas dos cinemas de todo o País, gozando a unanimidade do sucesso, é definitiva: ‘‘Como ator, foi o maior do cinema brasileiro em sua categoria. Não teve substituto’’.
‘‘O tempo do Oscarito foi aquele dos filmes sadios, sem palavrão, sem segundas intenções. Eram filmes que toda a família podia assistir, do mais novo ao mais velho’’, lembra Margot. Os tempos mudaram e o cinema é o oposto do que se fazia antigamente. ‘‘Se Oscarito voltasse e fizesse tudo aquilo que o imortalizou, o público não aceitaria. Hoje aceita-se o que escandaliza’’.
Margot trabalhava no cinema e no teatro quando conheceu o ator. Mantiveram juntos suas carreiras até ele decidir-se a parar com tudo. Ela o acompanhou. Para o comediante não havia mais condições de trabalho, com a mudança de comportamento, o ingresso do palavrão. ‘‘Então, como não seria aceito, ele preferiu sair antes’’, diz a mulher.
Dos títulos memoráveis destacam-se ‘‘Tristezas não Pagam Dívidas’’ (1944), ‘‘Este Mundo é um Panndeiro’’ (1947), ‘‘Falta Alguém no Manicômio’’ (1948), ‘‘Carnaval no Fogo’’ (1950), ‘‘Aviso aos Navegantes’’ (1951), ‘‘Dupla do Barulho’’ (1953), ‘‘Colégio de Brotos’’ (1956), ‘‘O Homem do Sputnik’’ (1959). O último trabalho foi ‘‘Jovens Pra Frente’’ (1968), filme cômico e sentimental, com participação de Jair Rodrigues e direção de Alcino Diniz.
Um dos planos de Oscarito era viver em São Lourenço, mas a morte chegou antes disso acontecer. Margot mudou-se para lá: ‘‘Estou aqui fazendo as vezes dele’’. Vive feliz, mas às vezes sente fisgadas de saudade dos palcos e estúdios. Lembranças esporádicas pois o casal de filhos que teve de seu casamento deu-lhe cinco netos e dois bisnetos, que são suas paixões. ‘‘Minha família é muito unida’’, explica.
A cantora Emilinha Borba lembra-se com carinho do colega: ‘‘Trabalhei com Oscarito em vários filmes. Eu ficava feliz quando era convidada a trabalhar com ele. Com sua morte perdemos um grande, mas muito grande artista. Eu o comparo ao nosso Charlie Chaplin’’. Nesta transição de séculos, Emilinha se diz incomodada é com o fim da arte sem apelação, como aquela vivenciada por ela nos tempos da chanchada.
Enfim, mudaram-se os tempos, reconhece. ‘‘As moças nuas na televisão, rebolando de maneira agressiva me desgosta. Falta arte, falta talento e sobra vulgaridade’’, desabafa. Pior que isso só mesmo a falta de memória cultivada pela mídia, que se curva apenas aos valores do passado do estrangeiro, e renega os nacionais. Por essas e outras a cantora decreta: ‘‘Oscarito teve um defeito – vir morar no Brasil, onde a mídia não respeita seus artistas’’.
Já consagrado, o comediante nascido ao sul da Espanha, mostrou com todas as cores e letras a brasilidade que havia em seu sangue: ‘‘Vim para cá pequenino, sofri mais que sovaco de aleijado. Fui tão aplaudido quanto jogador de futebol e criticado quanto o presidente da República. E ainda tive que me virar como malandro de morro. Logo, o que sempre fui mesmo, é brasileiro’’.

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