A galeria Bahiarte começa a comemorar amanhã, com uma mostra coletiva de pintura que acontece na tradicional Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina, 30 anos de estimulante participação nas atividades culturais da cidade. Há três décadas, coube à baiana Ana Maria Barreto, ''uma mulher determinada e perseverante'', conforme se define, tomar a iniciativa de abrir espaço para a arte contemporânea brasileira em uma região ainda pouco acostumada a esse tipo de refinamento.
Quando chegou a Londrina, no começo da década de 70, recém-casada com um médico neurologista resolvido a se estabelecer na cidade, Ana Maria não possuía muitos conhecimentos sobre arte, mas se destacava pelo bom gosto na escolha dos quadros que decoravam sua casa e que chamavam a atenção de quem quer que fosse visitar o casal. Com formação em Direito, mas sem nenhuma experiência profissional anterior em qualquer área, aceitou prazerosamente a sugestão do marido de se iniciar em alguma atividade. Juntando o bom gosto inato à amizade com o pintor baiano Carybé, que lhe abriu muitas portas em área de difícil acesso aos não iniciados, optou por investir em arte, inaugurando a primeira galeria de Londrina, em outubro de 1973.
Toda ousadia tem seu preço e, neste caso, como conta a marchand, ''foram três primeiros anos muito difíceis''. As pessoas iam às vernissages, encantavam-se com as obras e até compravam quadros. Contudo, isso estava longe de representar um mercado estabelecido. Se, por um lado, nunca foi tão necessário aplicar sua determinação e perserverança na consecução de um objetivo, por outro, Ana Maria não se sentiu sozinha em sua luta. ''Devo muito à imprensa em geral e, em especial, a João Milanez'', assegura, o fundador-presidente da Folha de Londrina, que conheceu num jantar e lhe deu um ano de propaganda gratuita no jornal, além de sempre prestigiar seu trabalho.
Mas enquanto o tempo passava, a galeria ia se firmando. Por força do empenho de Ana Maria à frente da Bahiarte, artistas famosos, como Aldemir Martins, Juarez Machado, Yugo Mabe, Carlos Scliar, o próprio Carybé, entre outros, passaram a incluir a cidade em circuitos regulares de exposições e de comercialização de suas obras. Hoje, ''Londrina possui coleções particulares mais representativas do que Curitiba'', conta a marchand, revelando, assim, a importância desse esforço de aproximação de artistas de renome nacional e internacional do público londrinense.
Mas se o particular foi atendido, a comunidade também não foi esquecida. Participante ativa da SAMALON (Sociedade dos Amigos do Museu de Arte de Londrina), representando a Bahiarte, Ana Maria passou ''a sacolinha pela cidade'', angariando fundos para conseguir dar uma feição mais moderna e consistente ao Museu de Arte de Londrina, reinaugurado com grande festa em 1998. ''A sociedade se mobilizou'', lembra, ''até o senhor que vendia cachorro-quente na frente do museu quis participar e doou R$10,00 para a reforma''. Os grandes nomes que haviam desfilado pela galeria até então não deixaram de prestigiar a iniciativa e fizeram doação de sua obras - num total de 42 - para o acervo do museu. A presença marcante da Bahiarte em todo esse processo de renovação, ''foi uma forma de retribuir o muito que a cidade me ofereceu'', garante Ana Maria, que hoje se considera londrinense de coração.
O crescimento da galeria, ao longo desses 30 anos, cooperou para o amadurecimento profissional de sua proprietária. ''Aprendi muito'', conta, ''especialmente a partir da convivência com esses grandes artistas''. Sentindo-se realizada, comemora este aniversário com a certeza de que, atualmente, sua galeria é sinônimo de seriedade e honestidade num ramo de negócios muito competitivo. ''Conquistei credibilidade'', afirma, destacando que em sua área de trabalho essa é a qualidade mais valorizada. Mas sua motivação continua forte como sempre foi, estimulando-a a continuar seguindo a meta traçada há 30 anos: ''Quero que as pessoas de todas as camadas sociais se interessem pela arte, pois é a arte que conta a história de um povo''.
Serviço:
Galeria Bahiarte - Coletiva 30 Anos, na Sociedade Rural do Paraná, dentro da programação da 43 Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina. Parque de Exposições Governador Ney Braga. Vernissage: amanhã, às 20h30. Artistas: Taraborelli; Cecconi; Matoso; Cestac; Carlos Araújo; Juarez Machado e Cléber Machado.

mockup