30 ANOS DE ARTE
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 01 de dezembro de 2000
Jackeline Seglin De Londrina 
Para comemorar seus 30 anos de carreira, o artista plástico e ilustrador médico Sergio Russo abre hoje, em Londrina, uma exposição de óleos, desenhos (caricaturas, cartuns e realismo), fotografias e modelagens, num total de mais de 70 peças. O vernissage está marcado para 20 horas, no Londrina Country Club.
Russo resume sua carreira como uma busca incansável pela técnica do desenho, base para outras atividades como a pintura, modelagens, cenografias e painéis decorativos. Médico por formação, foi na arte que ele encontrou sua vocação profissional. Além das artes plásticas, ele transita pela música, fotografia, arquitetura e, claro, pelas ilustrações médicas, sua especialidade.
A figura humana é um dos principais temas da exposição no Country. É uma retrospectiva, mas também tem coisas inéditas. Como não expus os trabalhos novos vou mostrar parte deles, com ênfase para a época européia, de 1985 a 1996, antecipa. Sergio Russo passou 11 anos de sua carreira no exterior.
Seu mais recente trabalho apresentado em Londrina, este mês, é um painel criado na fachada do restaurante Strassberg, no distrito da Warta. Durante nove semanas, Russo trabalhou em cima de um andaime para pintar um painel em acrílica de 60 metros, no qual conta a história da família Strass. Na Europa (sul da Alemanha e norte da Itália) são comuns os painéis bávaros, que contam histórias de famílias, cidades e fábulas. São painéis históricos que asseguram a cultura regional. Aqui criei um em estilo alemão/Warta, diz.
Nascido em São Caetano, região do ABC paulista, Sergio Russo chegou em Londrina em 1969. Um ano depois, aos 18 anos de idade, começou sua carreira profissional nas artes plásticas. Eu expunha na Praça Gabriel Martins com meia dúzia de artistas, os que existiam por aqui na época, lembra. Russo vem de uma família de artistas: o pai, Vicente Russo, era músico e compositor de música sacra. Dona Joaquina, sua mãe, tocava bandolim, acordeón e piano. Os dois se conheceram e cantaram 25 anos num coral de música evangélica, mas não eram profissionais, conta.
Ainda em 1970, ele ingressou no curso de Medicina na Universidade Estadual de Londrina queria ser cirurgião plástico. Na metade do curso desistiu da profissão, mas concluiu o curso. Nunca exerci a medicina profissionalmente, mas não me frustrei. Sempre ajudei as pessoas que precisavam através de meus amigos médicos. Em 1974, o artista parou de pintar para aprender a desenhar afinal, diz ele, não se começa a casa pelo telhado. Foi nessa época que Russo enveredou para as ilustrações científicas.
Cinco anos depois, o médico-artista viajou para os Estados Unidos como bolsista da Association of Medical Illustrators, onde teve dois meses de aulas de ilustração. De volta a Londrina para trabalhar na Universidade, a insatisfação profissional o levou a concorrer a outra bolsa de estudos, desta vez, pelo Governo de Berlim, também na área de ilustrações médicas. Entre 1985 e 86 trabalhou no Hospital da Universidade Livre de Berlim.
Em sua segunda estada na Alemanha, conheceu um amigo que o ajudou a escrever cartas para duas editoras do país a Springer e a Thieme. Ele não falava alemão e se comunicava, quando possível, através do inglês. Ou então pegava lápis e papel para se fazer entender. Queria um emprego lá. Na Thieme me perguntaram se eu era médico ou desenhista e qual era minha produção anual. Acabei fazendo uma entrevista, passei e fiz três testes de desenho. O ponto mais estressante e mais interessante foi quando um professor pediu que eu reproduzisse um desenho dele. A minha cópia ficou idêntica ao original. Ganhei a vaga e, em 88, comecei a trabalhar profissionalmente.
Até 1996, Russo fez ilustrações médicas em oito universidades da Alemanha, Suíça e Áustria, totalizando 11 livros. Foi difícil. Uma época mais de trabalho do que de lazer. Mas troquei experiências com eles, ensinando um pouco de gastronomia, artes plásticas, cinema e música brasileira. Além das ilustrações médicas, Sergio Russo realizou nove exposições de artes plásticas na Alemanha e aprendeu a desenvolver a técnica de modelagem. No total, ele realizou mais de 51 exposições. Russo voltou para o Brasil patrocinado pela Associação Paulista de Medicina, que trouxe seu trabalho para ser exposto em São Paulo, Ribeirão Preto, Cascavel e Londrina.
Na área musical, desde cedo o artista se dedicou a aulas de piano e teoria. Nos anos 60, foi contrabaixista de uma banda no interior de São Paulo. Também tocou flauta e saxofone na noite londrinense e em algumas casas noturnas dos Estados Unidos (Tony Pechos Cafe, em Ohio) e da Alemanha (Bar Floz e Zur Nolle, na Berlim Ocidental, e The Jazz Dixieland Hall, em Stuttgart).
Nas andanças pela Europa, Sergio Russo costumava carregar uma máquina fotográfica para registrar passagens interessantes. Uma delas foi a visita que fez ao Reichstag, a antiga prefeitura onde ficava Adolf Hitler. Eu e um amigo brasileiro da Embaixada fomos de carro até um trecho, depois seguimos a pé. Cheguei com uma teleobjetiva 200 mm e fotografei as ruínas do Bunker (abrigo antiaéreo onde Hitler teria se suicidado), conta.
Mas a visita à zona militar, na área do Muro de Berlim, resultou num susto. Um soldado começou a correr com a metralhadora em nossa direção. Entramos no carro e nos mandamos. Apesar do risco, voltei ao local no dia seguinte. As máquinas estavam terraplanando tudo. Eu tinha, então, uma foto de um lugar que não existe mais, comenta. Esta e outras fotografias também fazem parte da exposição.
Aos 48 anos de idade, Sergio Russo é convicto: Hoje faria tudo de novo. O artista voltou em 1996 para Londrina e montou uma escola de modelagem e desenho, a Pencil, que funciona no Centro de Dança e Artes Adanac (Rua Paranaguá, 1284 telefone: 43-324-6236). Quero continuar com as artes plásticas e estou pronto para ajudar na área médica. Está na hora das pessoas olharem para isso. Quero ser útil nessa área de ilustrações, avisa. Sergio Russo tem entre seus planos duas novas exposições: uma de telas românticas em óleo da França e Alemanha e outra dirigida à arquitetura européia.
Exposição de arte de Sérgio Russo. Abertura: Hoje, às 20 horas, no Londrina Country Club (Rua Fernando de Noronha, 977), em Londrina. Prossegue até 10 de dezembro.


