Agência EstadoAntes de morrer, em 1969, Ataulfo queria cumprir o compromisso assumido com o amigo Justino Alves Pereira: cantar em Londrina. Mas com o agravamento da úlcera que o atormentava cancelou o show e devolveu a parte do cachê que já havia recebidoRanulfo Pedreiro
Enquanto limpava os vidros da farmácia e manipulava alguns medicamentos, o jovem atendente se divertia com aquela freguesa extrovertida e bonita que propagava aos quatro ventos que seria grande atriz e cantora. O garoto ria discretamente. À noite, no morro, se dedicava às rodas de samba. O destino os reuniu com ironia, em 1935, quando Carmen Miranda - a freguesa - gravou ‘‘Tempo Perdido’’, composto por Ataulfo Alves - o atendente. Infelizmente, a música não fez o sucesso esperado.
O reconhecimento demorou. Ataulfo já havia cedido músicas ao Bando da Lua, Silvio Caldas, Carlos Galhardo e Orlando Silva. A cotação de seu nome subia, mas o retorno financeiro e o sucesso não chegavam. Até que, no começo da década de 40, com os intérpretes rejeitando suas melodias, resolveu gravá-las pessoalmente. Foram lançados ‘‘Leva meu Samba...’’ e ‘‘Alegria na Casa de Pobre’’, sem grande repercussão.
Enquanto isso, Herivelto Martins e Grande Otelo festejavam o sucesso de ‘‘Praça Onze’’, que estourou nas rádios e tinha tudo para ser a grande composição do Carnaval de 1942. Mas Ataulfo Alves invadiu a cena com voz intimista e melancólica, que fugia aos padrões da época e por isso ganhava apoio de um coro feminino. ‘‘Ai Que Saudades da Amélia’’ ecoou nas gargantas e explodiu, junto com seu autor, para a fama, inscrevendo-o entre os grandes nomes da música brasileira
O caminho foi difícil. Ataulfo Alves chegou no Rio de Janeiro por volta de 1926, proveniente de Miraí, Minas Gerais, sua cidade natal. A mudança se deu por questões financeiras. Órfão de pai, com 18 anos, o rapaz acompanhou um médico para quem trabalhou como auxiliar no consultório e empregado.
A situação o incomodava, tanto que preferiu se tornar limpador de vidros em uma farmácia, a Drogaria do Povo. Com as noites livres, Ataulfo voltou-se para um velho hábito, abundante no Rio de Janeiro: a música.
Ainda na infância, ele acompanhava o pai, Capitão Severino - que ganhou o título sem ser militar - violeiro e repentista. Com a morte do pai, fez de tudo para manter o orçamento: foi leiteiro, engraxate e carregador. Até que surgiu a oportunidade de ir para o Rio.
César AugustoEm 1989, Ataulfo Alves ganhou um disco-homenagem da Som Livre (em destaque) com interpretações do filho Ataulfo Alves Júnior, Elizeth Cardoso e Gilberto Gil, entre outros. Entre várias gravações deixou um legado de mais de 600 músicas‘‘Ai que Saudades da Amélia’’ também rendeu algumas dores de cabeça. Dizem que Mário Lago, autor da letra, não aceitou as mudanças do compositor para encaixar a melodia. A contenda terminou com o passar do tempo, quando a amizade falou mais alto e Lago reconheceu a parceria. A música também provoca sustos na atualidade pela visão machista imposta a um conformismo feminino. Mas, no contexto da época, era recebida com naturalidade.
O formato dos arranjos, com o coro feminino dando suporte aos seus limites vocais, foi levado adiante. Ataulfo criou o famoso grupo As Pastoras, que o acompanhava e, invariavelmente, ele regia com um lenço branco. Os sucessos foram se multiplicando: ‘‘Inimigo do Samba’’, ‘‘Todo Mundo Enlouqueceu’’, ‘‘Boêmio Sofre Mais’’ e ‘‘Infidelidade’’, entre outros.
Ao mesmo tempo crescia a fama de boa gente, cuidadoso com a família, elegante e honesto. Tratava com respeito As Pastoras e preservava o dinheiro construindo um patrimônio razoável. Nas composições, era um amante passivo, traído conformado, que observava com pesar as desilusões. Era também um dos principais nomes na luta pelo reconhecimento dos direitos autorais num período em que samba tinha valor de troca e era vendido rotineiramente.
A dor-de-cotovelo se acentuou na década de 50, quando tornou-se moda. Surgiram ‘‘Fim de Comédia’’, ‘‘Errei Sim’’, ‘‘Pois É...’’ e ‘‘Vai, Mas Vai Mesmo’’, sucesso no Carnaval de 1958. Com ‘‘Mulata Assanhada’’ e ‘‘Na Cadência do Samba’’ viajou ao lado de Humberto Teixeira no início dos anos 60 para divulgar a música brasileira pela Europa.
Na volta, afastou-se das Pastoras e passou a se apresentar sozinho, enquanto uma úlcera no duodeno causava preocupações. Chegou a viajar à África, em 1966, para participar de um festival de arte negra, e emplacou, no ano seguinte, ‘‘Laranja Madura’’. Ainda fez algumas parcerias com Carlos Imperial, antes de morrer em 1969, de hemorragia em consequência de uma cirurgia provocada pelo agravamento da úlcera, no dia 20 de abril - há 30 anos, que se completarão terça-feira.
Antes, quis cumprir um compromisso com um amigo, o médico Justino Alves Pereira, que vivia em Londrina e o indicara para Omar Mazzei Guimarães, então presidente da Sociedade Rural do Paraná, como um bom show para a Exposição Agropecuária da cidade. Mas, doente, Ataulfo desculpou-se com o presidente, devolvendo-lhe a parte do cachê que recebera adiantado. Faleceu pouco depois, deixando um legado com mais de 600 músicas.

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