25 anos sem Pablo Neruda
Havia um tempo em que bastava uma leitura geral dos cantos de Pablo Neruda (1904-1973) para que o sol se apagasse e, mesmo em meio a dor de uma separação, não se podia esquecer de cobrar a devolução de livros do vate chileno, com a alfinetada amarga: Que você pegou e nunca leu. Muitos mais, aliás, pegaram obras dele e nunca leram, vítimas da terrível doença nacional do modismo literário. Implacável, o mesmo tempo jogou os versos de denúncia social do Prêmio Nobel de Literatura de 1951 no esquecimento. Sem o carteiro, o poeta está de volta em Cadernos de Temuco: 1919-1920 (Betrand Brasil, 266 págs., R$ 30,00), reunião de poemas de juventude, que só há poucos anos vieram à luz.
São três cadernos de versos que abrigam a maior parte dos poemas de sua primeira fase e foram dados de presente à irmã, Laura Reyes, a Laurita. Para bem da verdade, o seu verdadeiro autor é Ricardo Neftali Eliezer Reyes Basoalto, nome verdadeiro de Neruda, cujo pseudônimo o jovem roubaria, anos mais tarde, de um autor (Jean Neruda) de contos lidos numa revista, quando buscava um apelido para se esconder da ira do pai - que odiava a idéia de ele escrever e chegou a queimar originais do filho - e poder enviar seus versos a um concurso literário. Que ele venceu, é claro.
Temuco era, então, uma aldeiazinha no extremo sul do Chile, para onde a família do poeta, ainda um bebê, transferiu-se, vinda de Parral, cidade natal de Neruda. Em volta dela havia a floresta e o campo, em que viviam os índios Mapuches. Temuco é a minha paisagem, o essencial de minha poesia, era como a descrevia o próprio escritor. Em 1910, entrou para o Liceu Masculino celebrizado, nem sempre com grata lembrança, em Confesso que Vivi - e começou a rabiscar os primeiros versos, sempre em cadernos.
Falando - e já antecipando a linguagem futura de sensualidade, erotismo e melancolia - de amores, culpas, gozos, ilusões, medos e expectativas, em Cadernos de Temuco, avisa o estudo introdutório de Victor Farías na edição brasileira, não se deve perder tempo procurando observações pungentes sobre a triste realidade sociopolítica, que fariam a sua marca em Canto Geral. O jovem Neruda ou bem resistiu a ver os fatos vigentes ou bem interiorizou o discurso ideológico vigente que identificava massacre com pacificação. A ausência é constatável, tal qual a da Guerra Mundial, analisa o estudioso.
A estruturação da obra obedeceu a uma organização notável - feita por ele, com ajuda de Laurita - deixando clara a intenção de Neruda de compor um livro. Ao longo de sua vida, porém, o poeta foi tirando, aos poucos, alguns versos para publicação isolada ou incluiu-os em Crepusculário. Após a sua morte, a irmã deu os originais ao filho de um irmão de seu marido, Rafael Aguayo, que, em 1980, entregou-os a Sothebys, de Londres, para serem leiloados. Os cadernos saíram de circulação e os donos não estavam dispostos a mostrá-los para o público.
A sorte trouxe-os - e ao jovem Neruda - de volta à vida. Bernardo Reyes, sobrinho do autor, arrumando a sua casa, em Temuco, deu de cara com cópias dos manuscritos e confirmou, com Aguayo, a sua veracidade. Revistos por especialistas da Fundación Neruda e por Victor Farías. Os Cadernos de Temuco chegam agora ao País na tradução do poeta Thiago de Mello, que assim os define: São como as pedras fundamentais sobre as quais se elevou o iluminado monumento que é hoje, para quem ama a poesia. São as primeiras raízes da generosa árvore, de amplos sortilégios, cujos frutos e flores, ricos da seiva de palavras encantadas, perduram entre os mais belos poemas escritos por este século.ReproduçãoEm Cadernos de Temuco Neruda antecipa a linguagem de erotismo e melancoliaCarlos Haag
Agência Estado





